Entrevista: Plataforma de mapeamento de biomas terá inúmeras aplicações para o Brasil

tasso azevedo

Foto: Divulgação

Uma plataforma inédita no mundo, que permite visualizar de forma automatizada as transformações no solo e biomas do país. Esse é o Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil (MapBiomas), uma iniciativa do Observatório do Clima, em parceria com quase duas dezenas de organizações entre Universidades, ONGs e empresas de tecnologia, coordenada pelo engenheiro florestal Tasso Azevedo.

A iniciativa é baseada no uso de classificadores automáticos, desenvolvido em rede por um extenso grupo de especialistas em sensoriamento remoto, biomas, atividade rural e computação em nuvem. Além dos mapas de uso da terra o MapBiomas e disponibiliza seus softwares, aplicativos e códigos para replicação da ferramenta por outros países e regiões.

No próximo dia 28 de abril, em Brasília, será lançada a nova coleção de mapas da plataforma [clique aqui para mais informações sobre o evento]. Os novos dados permitirão análises e aplicações diversas, como medir a produtividade da pecuária, identificar áreas prioritárias para restauração ou calcular a taxa de desmatamento total do país – hoje, o Brasil divulga com regularidade apenas a taxa para a Amazônia.

Azevedo espera que os dados sejam aproveitados por diferentes atores – governo, academia, sociedade civil e produtores – em seus processos decisórios. Ele imagina também que a plataforma possa trazer elementos para debater o futuro da agropecuária, como evidências da eficácia de unidades protegidas na conservação dos recursos naturais. 

 

Quais são os maiores desafios do país em relação ao uso inteligente do solo brasileiro?

O primeiro desafio é a destinação correta das áreas públicas que representam mais de 50% do território. Precisamos destinar essas áreas de forma a garantir a conservação dos recursos naturais e gera benefícios para sociedade. O segundo desafio é ter a percepção e a prática de que conservar o solo, a água e a biodiversidade é fundamental para garantir também a manutenção das atividades econômicas que dependem do uso do solo. Se essas duas coisas se alinharem, haverá um uso mais inteligente do solo brasileiro.

Como a plataforma MapBioma se relaciona com esses desafios?

A plataforma permite entender como têm se dado as transformações no território. Com isso, conseguiremos entender as tendências, os mecanismos que provocam mudanças nas formas como o território é utilizado e identificar as áreas prioritárias para agir, tendo como objetivo fazer uma gestão inteligente do território. Por exemplo, com essa plataforma, podemos identificar focos de áreas de desmatamento ou de regeneração. Podemos também identificar maior ou menor produtividade rural na pecuária ou agricultura.

Podemos entender onde está acontecendo um processo de conversão de áreas de florestas em áreas agrícolas, onde a agricultura está substituindo a pecuária, onde a pecuária está aumentando sua produtividade e até mesmo compreender os padrões de expansão urbana.

A ideia é conhecer como tem se transformado a realidade e, conhecendo essas transformações, ser capaz de desenhar cenários para o futuro e interferir na realidade com políticas públicas e privadas.

Que conclusões sobre as mudanças no uso do solo brasileiro podemos tirar a partir dos dados que estão disponíveis na plataforma Mapbiomas?

Na versão atual, há um mecanismo para visualizar as mudanças no uso do solo, mas é apenas um demonstrativo de como a plataforma vai de fato funcionar com a segunda coleção de mapas, que será lançada em breve [em 28 de abril, clique aqui para mais informações]. Hoje, é possível identificar algumas características do território brasileiro como os municípios brasileiros com maior cobertura vegetal ou comparar regiões que têm maior área de produção agropecuária. Mas ainda não é possível fazer uma análise sobre as transformações do solo brasileiro.

Com a segunda coleção de mapas, será possível, por exemplo, calcular a taxa de desmatamento de todo o Brasil. Hoje, o país só publica os dados de desmatamento da Amazônia e é um dado específico – desmatamento bruto de florestas primárias. Com os novos mapas na plataforma, será possível calcular também o desmatamento de florestas secundárias ou o desmatamento líquido [diferença entre o desmatamento de novas áreas e o reflorestamento de áreas já ocupadas].

São várias abordagens que não eram possíveis antes, pois não havia esse tipo de mapeamento. Em termos da agenda de clima, será possível calcular com muito mais precisão e clareza quais são realmente as emissões e a remoção de Gases do Efeito Estufa (GEE) oriundas do uso da terra, nossa principal fonte de emissões.

Esta é a única plataforma deste tipo, no mundo?

Neste formato, escala e nível de detalhamento, sim. Tem países que já fizeram alguns mapas de uso da terra antes, mas nunca com processamento automatizado. Por exemplo, o Brasil tem mapas de uso da terra feitos para os anos de inventários de emissões, que foram 1994, 2005 e 2010, e um mapa numa escala geral feito pelo IBGE para anos específicos. Mas nenhum país tem uma série histórica que seja contínua, com as várias classes de cobertura e uso do solo e com escala de pixel de 30m. Esse é o primeiro caso e ele só foi possível juntando décadas de conhecimento acumulado de sensoriamento remoto, biomas e produção rural associado à possibilidade de utilização de classificadores automáticos, a disponibilidade de imagens de satélite de forma acessível e o avanço da computação em nuvem, que, no caso do projeto, foi provido pela Google. Isso permitiu juntar instituições e especialistas em diferentes lugares do Brasil para trabalhar em rede. Essa mistura fez com que a gente criasse um novo método de trabalho e pudesse lidar com uma grande quantidade de dados ao mesmo tempo, gerando os mapas nos diferentes anos.

Como vocês identificaram que era importante fazer esse mapa?

O Observatório do Clima já mantém há alguns anos o Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), que calcula as emissões brasileiras de GEE para todos os itens possíveis e com certo nível de detalhe. Mas, apesar de mudanças do uso a terra ser a nossa principal fonte de emissão, esse é o dado com menor precisão nas estimativas. O motivo para isso é que não existiam mapas de uso da terra no Brasil.

Acontece que o método convencional para fazer um único mapa esse tipo demora cerca de 14 meses e custa alguns milhões de reais.

Como viabilizaram tecnicamente a construção da plataforma?

Nós juntamos um grupo de especialistas (biomas e sensoriamento remoto) para pensar em como resolver o desafio de gerar esses mapas para vários anos, de uma forma rápida, com boa qualidade e a baixo custo. Esse grupo reunido concluiu que seria possível, mas exigiria um novo método de trabalho e também uma enorme capacidade para processar todas as imagens e dados.

Procuramos a Google para uma parceria e obtivemos um financiamento importante do governo da Noruega. O projeto do MapBiomas começou então em julho de 2015, a versão beta foi lançada no fim daquele ano e, agora, estamos lançando a versão dois, que é a versão “para valer”.

O grupo que criou a plataforma é um trabalho em rede, ou seja, não tem sede em nenhum lugar e é composto por várias instituições – tem quatro universidades, oito ONGs e quatro empresas de tecnologia envolvidas. É esse conjunto que faz o trabalho de gerar os mapas e que está também gerando os softwares e aplicativos que permitem reproduzir o que a gente está fazendo no Brasil.

A gente acredita que esses dados têm que ser públicos, mas também praticamos isso. Então, tudo que estamos fazendo, inclusive os mosaicos de imagens de satélite, os mapas intermediários, amostras de acurácia e os códigos-fonte, estão sendo disponibilizados. Aquilo que a gente pede, a gente pratica. 

Com isso, o projeto está indo agora para outras regiões. Nós desenhamos o projeto para que ele pudesse se expandir para outros lugares.  Então, agora, ele está sendo implementado na região do Chaco (que abrange Paraguai, Argentina e Bolívia) e tem um grupo de países da bacia Amazônia interessado também.

Que tipo de análise será possível realizar a partir da segunda coleção de mapas, que será lançada no dia 28 de abril?

São muitas as aplicações possíveis a partir de um dado público. Por exemplo, vamos ter o primeiro mapa de mangues do Brasil e de avanço e recuo da linha de costa. Teremos também os dados de desmatamento para todo o Brasil, sendo que hoje não temos nem a estimativa nacional anual. Será possível entender onde a vegetação natural e as florestas estão regenerando. Ou então, poderemos avaliar as mudanças do uso do solo após a data de corte do novo código florestal, julho de 2008.

A plataforma permite fazer o download dos dados para uso no próprio computador ou processar a informação na nuvem. Tudo isso vai estar disponível a partir de 28 de abril e a gente imagina que ao longo dos próximos meses e anos, veremos centenas de trabalhos publicados por diferentes agentes que vão usar isso como uma base de trabalho. E, claro, vamos usar esses dados também para calcular as emissões, que serão mais precisas nas próximas edições do SEEG.

Como você imagina o uso dessa plataforma ou de seus dados pelo governo?

Vou dar dois exemplos. No caso do Serviço Florestal Brasileiro, uma aplicação importante é todo o processo de planejamento e monitoramento das concessões florestais para saber se houve ou não exploração florestal e se está dentro das regras do contrato. É também uma forma de avaliar o estado e as transformações nas áreas do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Discutimos também com o Ministério do Meio Ambiente um sistema de monitoramento dos processos de desertificação do Brasil, algo que não existe hoje e que poderia ser desenvolvido com base nos dados do MapBiomas.

Como você vê aplicação da plataforma no trabalho dos produtores?

Um bom exemplo é a pecuária.  A gente vai poder observar a evolução da produtividade da pecuária, medida em unidade-animal por hectare, que é muito baixa no Brasil, mas que está avançando em algumas áreas.

Por exemplo, em algumas regiões, especialmente no Sudeste, o número de unidades de animais por hectare tem subido nos últimos 16 a 17 anos. Uma hipótese é que as áreas têm valorizado com o aumento da demanda agrícola e, com isso, a agricultura está pressionando as áreas de pastagem. O pecuarista, para poder manter suas atividades, tem que ser mais eficiente, ou então é melhor arrendar sua terra para a agricultura. Então, a pressão da agricultura, nesse caso, estaria gerando uma maior produtividade pecuária.

Em outras regiões, por exemplo, no sul da Amazônia, o efeito da agricultura sobre a produtividade da pecuária parece ser diferente. Há municípios em que cresce a produção agrícola e cai a produção pecuária porque a agricultura está empurrando a pecuária “para cima”, ou seja, o efeito não é aumentar a produtividade, mas sim deslocar a pecuária para outros municípios.

Essa análise mostra onde se deve atuar de forma mais direta para aumentar a produtividade pecuária e evitar desmatamento nesse deslocamento. E, se o produtor entende isso, ele pode ter maior clareza sobre o tipo de investimento que deve ser feito. Ainda para os produtores, há a possibilidade de identificar, por exemplo, onde existem áreas excedentes de reserva legal que podem servir para compensação.

Os vários setores envolvidos (governo, produtores, organizações da sociedade civil etc.) estão capacitados para conseguir usar os dados da plataforma?

Antes desse trabalho ser feito, dava para contar nos dedos os grupos e pessoas capazes de trabalhar com sensoriamento remoto na escala do país. Hoje, temos mais de 60 pessoas, em vários locais do Brasil, em todos os biomas. É como se a gente tivesse multiplicado o número de pessoas e instituições capazes de lidar com esse tipo de dado nessa escala. E é algo que é relativamente simples. Por exemplo, para treinar as equipes do Paraguai, Argentina e Bolívia para usar a plataforma, foi necessário apenas uma semana de treinamento e, agora, eles já estão fazendo o mapa deles. De certa forma o projeto acaba por facilitar e democratizar a produção de mapas em larga escala.

Como você enxerga a contribuição da plataforma MapBiomas aos objetivos da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura?

A plataforma cumpre um dos objetivos do documento-base da Coalizão, que é produzir um mapa anual de uso e cobertura da terra no Brasil, para compreender as transições e modificações no solo do país. Mas o MapBiomas acaba contribuindo também para vários outros objetivos do movimento. Por exemplo, para a implementação do plano de agricultura de baixo carbono é preciso entender se estamos aumentando a produtividade agropecuária, se estamos restaurando os doze milhões de hectares que nos comprometemos, entre outros indicadores.

Com o MapBiomas, o Brasil está mais próximo do alcance das metas de Paris?

Esse mapa apenas permite entender em que direção o país está caminhando, algo que hoje não entendemos, mas não faz nada em relação às metas em si. Pode ser que os mapas tenham um efeito indireto, contribuindo para melhores políticas e o cumprimento da meta. Mas, hoje, é uma plataforma que gera dados que podem ser usados para diversas finalidades, inclusive algo que vá na direção contrária do que se espera. Nossa expectativa é fazer com que o país seja capaz de fazer intervenções mais precisas, mais eficientes, menos custosas e que possam gerar mais resultado. Por exemplo, se temos pouco recurso para investir e precisamos priorizar áreas para restauração e recuperação, é possível identificar áreas prioritárias por meio do MapBiomas.

Qual é o próximo passo a ser dado para o avanço da agenda do uso inteligente do solo brasileiro?

Acho que é gerar, a partir dos dados da plataforma, uma taxa de desmatamento, degradação e recuperação florestal para o Brasil. Calculando para o Brasil, teremos também para todos os municípios, estados e biomas. Com isso, esperamos que alguns pontos se tornem mais claros, por exemplo, a eficácia de se estabelecer áreas protegidas, sejam elas públicas ou privadas. O absurdo que estamos vendo agora para mutilar e ceifar as unidades de conservação [referindo-se a medidas recentes encaminhadas pelo Congresso Nacional]  deveria ser claramente visto como algo negativo para a conservação e proteção dos recursos naturais dessas áreas.