Entrevista: O futuro da produção de alimentos

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Foto: Divulgação

O Brasil é uma das principais potências agrícolas do mundo. Compreender como a produção de alimentos pode resistir e combater a mudança do clima é fundamental para preservar a economia brasileira e o abastecimento mundial de produtos agrícolas.

Durante os eventos, em Paris, The Future Of Food In A Climate Changing World e Sequestering Carbon in Soil: Addressing the Climate Threat, Ciniro Costa Junior, analista de Clima e Cadeias Agropecuárias do IMAFLORA e membro do Grupo de Trabalho da Agricultura de Baixo Carbono (GT ABC) da Coalizão Brasil, representou o movimento junto a cerca de 250 especialistas e líderes locais e globais. Nessa entrevista, ele compartilha as principais mensagens que trouxe desses encontros e explica como a agricultura e a pecuária no Brasil têm se adaptado cenário de aquecimento global.

Qual é a relação entre mudanças climáticas e a produção de alimentos?

É bem estreita. A agropecuária é o segundo maior setor emissor de gases de efeito estufa (GEE) global, atrás apenas do setor de energia, e precisa suprir demandas crescentes de alimentos e outras matérias-primas nas próximas décadas. No entanto, para suprir essas demandas, ela não pode ser negativamente impactada pelas mudanças climáticas, o que é muito provável que aconteça se nada for feito. Isso porque a produção de alimentos depende do equilíbrio e das características que cada região do planeta possui. Por exemplo, hoje nós (brasileiros) só conseguimos produzir certos alimentos, como milho, soja, outros grãos, fibras e até mesmo combustíveis, por conta das condições climáticas e físicas que propiciam essa produção. Então, quando as mudanças climáticas se tornam mais acentuadas, elas têm o poder ou a capacidade de alterar essas condições climáticas regionais a ponto de não permitir que a gente produza a mesma quantidade e qualidade com a qual estamos acostumados a fazer. A tendência é que, se as mudanças climáticas começam a afetar cada vez mais esse equilíbrio do planeta, nós teremos que nos adaptar constantemente. Mas essa adaptação tem um limite e acredita-se que depois de um certo ponto, ela não é mais possível. Isso pode limitar muito a nossa capacidade de produzir alimentos. Esse contexto motivou a realização de dois recentes eventos que reuniram pessoas de 40 países em Paris no começo de maio desse ano, e que contou com a presença da Coalizão. Assim, os sistemas produtivos agropecuários devem considerar reduzir suas emissões de GEE para continuar a produzir com alguma previsibilidade.

Quais os principais desafios desse tema que foram debatidos no evento The Future Of Food In A Climate Changing World?

O debate sobre o futuro da produção de alimentos nos traz várias questões, como qual é o papel dos atores envolvidos nos sistemas produtivos e qual o papel da cadeia de valor (produção, processamento, comercialização e consumo). E, considerando ainda que a produção de alimentos é globalizada e ocorre em um mundo que sofre cada vez mais com as mudanças climáticas, como tais atores podem se coordenar para evitar o aumento de 2ºC na temperatura média do planeta, se possível até 1,5ºC, que é o principal ponto do Acordo de Paris.

Como as mudanças climáticas são globais, não adianta apenas um ator da cadeia produtiva ter uma boa performance climática. O mundo e os setores têm que estar coordenados, pois somente juntos é que poderemos reverter a tendência das mudanças climáticas e cumprir o Acordo de Paris. O evento reuniu esses atores para conversar sobre este tema.

Que atores são esses?

Eram representantes de cerca de 40 países que abrangiam os mais variados tipos de sistemas produtivos: desde representantes da Nestlé, Danone e outras grandes corporações, até produtores agroflorestais da América Central. Todos os elos da cadeia juntos para debater.

Todos os setores e atores que estavam ali presentes reconhecem que precisam fazer alguma coisa. Reconhecem que todos estão conectados e que têm alguma coisa a ver com esse problema, o desafio é a coordenação e graus de responsabilidades e compromissos. Acho que o grande valor desses eventos foi colocar esses atores juntos para discutir, ou seja, um momento para ver e entender a atual percepção dos mesmos quanto ao tema e discutir essa questão fora das suas caixas, como ocorre normalmente.

Qual é o papel de iniciativas como a Coalizão na coordenação desses atores e setores chave?

A Coalizão está engajando justamente os setores envolvidos nesse tema, que são o setor privado, a sociedade civil e outras associações que permeiam tais atores. A Coalizão formou um microcosmo brasileiro que está bem engajado e pode fazer a diferença, fazendo com que o Brasil cumpra seu dever para com a sociedade global.

Sempre que eu me apresentava como Coalizão no evento e explicava o que é o movimento, as pessoas ficavam bem impressionadas com a capacidade de engajamento que a Coalizão tem desenvolvido. Não se conhece outro lugar ou país com um engajamento parecido. O fato de pôr esses atores na mesa para conversar, que é um dos papéis da Coalizão, já é uma grande conquista. É fundamental, mas isso é o primeiro passo para pôr em prática, de fato, estratégias que realmente reduzam emissões e adaptem os sistemas produtivos brasileiros a uma economia de baixo carbono.

Esse evento evidenciou que dar o passo além do engajamento é uma ação urgente. Várias estratégias podem ser tomadas para mitigar as mudanças climáticas globais em sistemas de produção agropecuários, mas pelo menos uma delas encontra transversalidade entre os mais variados sistemas: a de sequestrar carbono no solo - que foi o tema do segundo evento da conferência.

No evento em Paris, foi apresentado um estudo da Universidade da Califórnia – Berkeley que estimou que se boas técnicas forem implementadas em todas essas áreas, apenas o sequestro de carbono no solo pode ser responsável por 10% da meta global de redução de gases na atmosfera.  É muito significativo.

O evento trouxe uma resposta importante. Os debates mostraram que é viável sequestrar carbono no solo com o objetivo de mitigar as mudanças climáticas e garantir a produção de alimentos, aumentando a resiliência dos sistemas produtivos. Esse é um recado bem forte do encontro.

O que é o sequestro de carbono no solo?

O sequestro de carbono no solo é a estocagem de CO2 da atmosfera na matéria orgânica do solo. Em um contexto agropecuário, o sequestro de carbono no solo está ligado ao ciclo do carbono em agroecossistemas. O carbono é o principal componente da matéria orgânica do solo e configura, entre outras coisas, a fertilidade do solo. A matéria orgânica é formada pelo processamento microbiológico dos resíduos orgânicos depositados no solo pelas plantas e suas raízes. Esse processamento também disponibiliza nutrientes para o desenvolvimento da vegetação e devolve CO2 para a atmosfera, o qual é novamente capturado e fotossintetizado pelas plantas, formando o ciclo do carbono. Para se ter uma ideia, a quantidade de carbono estocado no solo varia de 30 a 800 toneladas, representando um dos maiores reservatórios de carbono do planeta. Há cerca de quatro vezes mais carbono no solo do que contido na vegetação nativa e três vezes mais do que na atmosfera.

A degradação dos solos por sua vez, altera esse ciclo, diminuindo os resíduos suficientes para manter os níveis originais de carbono no solo. Como consequência, o solo perde fertilidade, reduz sua capacidade produtiva e aumenta a concentração de CO2 na atmosfera, contribuindo para as mudanças climáticas globais.

Hoje, estima-se que aproximadamente 30% dos solos agropecuários no mundo apresentam algum grau de degradação. Apenas no Brasil existem cerca de 40 milhões de hectares de pastagens degradadas, por exemplo.

Nessas áreas há um déficit de carbono que as tornaram reservatórios, onde carbono pode ser sequestrado, formando matéria orgânica, aumentado a fertilidade do solo, reduzindo a quantidade de CO2 na atmosfera e garantindo a produção de alimentos de forma mais conservacionista.

O sequestro de carbono no solo está muito ligado a boas práticas de produção agropecuária, o que exige mudar muitos de nossos conceitos e paradigmas, introduzindo práticas que não estamos acostumados a fazer – seja por falta de orientação, conhecimento ou por hábito.

Você pode mencionar exemplos de práticas de sequestro de carbono?

De maneira geral práticas agropecuárias que sequestram carbono no solo são aquelas que mantem o solo coberto permanentemente com vegetação ou resíduos vegetais, ou seja, quando não há solo exposto, e que não revolvem o solo frequentemente e respeitam a quantidade de lotação animal adequada.

Claro que cada região tem suas particularidades que devem ser levadas em consideração. Nesse aspecto, a assistência técnica é fundamental para a introdução das práticas mais adequadas. Assim como são importantes crédito para financiar as mudanças e manutenções e o setor privado para disseminar tecnologia e ofertar serviços. Além de um sistema de monitoramento operante para avaliar e acompanhar o balanço de emissões dos solos, dando credibilidade e diferenciando os produtores que se engajam em produzir com melhor qualidade, por exemplo.  Aliás, fazer essa análise, propor, auxiliar e influenciar processos de tomada de decisão para a disseminação em larga escala de práticas que sequestrem carbono no solo é um objetivos do GT ABC da Coalizão.

Essas técnicas que buscam conservar o solo na agropecuária são amplamente utilizadas no Brasil?

Na agricultura, temos bons exemplos no plantio direto para a produção de grãos, por exemplo. Em linhas gerais, é um sistema que não revolve o solo e mantém os resíduos pós-colheita sobre o solo, por exemplo, plantando-se milho sobre os resíduos da colheita da soja. Por isso, evita-se a decomposição exacerbada da matéria orgânica e, na verdade, favorece a sua manutenção e até mesmo a sua construção, sequestrando carbono.

No passado, muitos produtores passavam o trator e revolviam o solo para cultivá-lo. Quando se revolve o solo, acelera-se a decomposição dos resíduos, comprometendo a matéria orgânica. Além disso, essa prática estava resultado em muita erosão e perda de solo. O revolvimento é uma prática trazida de locais de clima temperado, utilizada para quebrar solo congelado, por exemplo. Mas a gente não tem esse problema aqui no Brasil. E aí, nas décadas de 1960 e 1970, foram implantadas as técnicas do plantio direto no Sul do país e começaram a ver que ela evitava as erosões e apresentava as mesmas produtividades, ou ainda maiores. A técnica se disseminou e as estimativas indicam que cerca de 80% da área de grãos no Brasil já adotam o sistema de plantio direto.

O recado é que houve, então, uma necessidade de técnicas mais conservacionistas para manter o solo e garantir a produção. Essa técnica foi buscada, introduzida no país, compreendida pelos produtores de forma geral e, graças a isso, se disseminou. O mesmo deve acontecer com práticas agropecuárias de baixas emissões de carbono. E, como dito anteriormente, boas práticas agropecuárias tendem a ser importantes para resolver uma série de limitações e problemas, incluindo o combate às mudanças no clima.

E como a pecuária brasileira se situa em relação a essas técnicas?

A agricultura, nesse aspecto de conservação de solo, está bem mais avançada do que a pecuária. O nível tecnológico adotado pela agricultura é muito mais avançado do que na pecuária, no Brasil.

Em linhas gerais, devido ao fato de a pecuária ser feita de forma mais extensiva, o produtor não consegue manejar seus animais e suas pastagens de forma harmônica, ou seja, prover as condições de manejo capazes de desempenhar todo o potencial desse sistema de produção. Estudos mostram que menos de 30% do potencial produtivo das pastagens brasileiras é explorado.  A falta de manejo tende a exaurir os solos, que quase não consegue ofertar alimento em quantidade e qualidade suficiente aos animais. Como consequência, há perda de matéria orgânica dos solos e emissões de GEE acentuadas nesses sistemas.

Em recente estudo, o IMAFLORA, em parceria com o Instituto Centro de Vida (ICV), mostrou que até 50% das emissões de GEE por hectare de fazendas de pecuária de corte podem ser reduzidas com bom manejo das pastagens e dos animais, com aumento da produção de carne em ao menos 3 vezes, graças ao sequestro de carbono nos solos.

Qual é o principal aprendizado dessa experiência para o trabalho da Coalizão?

Todos reconhecem que é preciso um trabalho conjunto para atingir a meta climática global, não é um trabalho isolado. Está aumentando essa consciência de que precisamos trabalhar juntos. Eu vejo que o Brasil, por meio da Coalizão, tem feito um trabalho muito especial de unir essas pessoas e trazê-las para conversar. Isso é uma etapa fundamental para construção de qualquer estratégia de mudanças climáticas e o Brasil tem a sorte de ter essa condição. Agora, é hora de pensar nas estratégias, sair da fase de planejamento e passar para a fase de implementação. O que requer um esforço adicional ao engajamento que a Coalizão tem feito. Seria muito importante que a Coalizão desse esse passo à frente para trabalhar para implementar todos esses planejamentos que a gente tem feito.