O que o Brasil tem a ensinar e a aprender sobre o combate ao desmatamento

Por Isabella Vitali e Fabíola Zerbini

O Brasil é visto como vilão e herói nas esferas internacionais de discussão do desmatamento. Herói, pela redução histórica de 80% na derrubada de florestas na Amazônia, ocorrida entre 2004 e 2014. Vilão, entre outros motivos, porque, apesar disso, o desmatamento voltou a subir nos últimos dois anos, chegando a um aumento de 60% em relação a 2014, segundo números anunciados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) no fim de novembro. Apesar das oscilações, e até mesmo por conta delas, é possível compartilhar experiências com outros países em desenvolvimento. Três inovações brasileiras merecem destaque.

1. A tecnologia e a estrutura de monitoramento do desmatamento na Amazônia brasileira são muito superiores às realizada pelos demais países da região, que não contam com um sistema de vigilância em tempo real, permitindo ações de fiscalização de forma cirúrgica, concentradas nos focos de desmatamento criminoso. Esse desafio existe na América Latina e em vários países do oeste africano, que contam com vastas áreas de floresta e escassos recursos.

2. Acordos setoriais, como o da soja e da pecuária, que resultaram de ações e pressões da sociedade civil, de compradores internacionais, do setor financeiro e do Ministério Público para não se adquirir produtos oriundos de áreas desmatadas ilegalmente. São exemplos mundiais, e seus mecanismos de governança, que permitiram a construção, implementação e monitoramento desses acordos -- bem como a sua permanência e eficácia --, servem como referências valiosas para desafios como a expansão de palma sobre florestas tropicais no Sudeste Asiático, ou da soja e da pecuária sobre o Chaco e a Mata Atlântica no Paraguai.

3. Técnicas de restauração de vegetação e de paisagem florestal (RPF), em larga escala, por meio do engajamento de produtores rurais e comunidades. O Brasil participa de vários projetos de intercâmbio técnico com países asiáticos e latino-americanos.
É certo que muitos desafios estão pela frente. Além do aumento do desmatamento e da degradação na Amazônia, o monitoramento de outros biomas, como o Cerrado, acontece de forma irregular ainda em nosso país, o que, somado à pressão pela expansão agrícola, resulta em mais prejuízos ambientais. Cabe acrescentar que pequenos produtores, assentamentos, comunidades indígenas e tradicionais ainda estão excluídos das cadeias produtivas globais e do acesso a políticas públicas continuadas de extensão técnica -- só para citar alguns exemplos.

Países asiáticos, africanos ou latino-americanos estão vivenciando e/ou criando experiências concretas que podem concretizar soluções a esses desafios e serem replicadas aqui. Alianças globais, que unem empresas, poder público e organizações da sociedade civil -- como o TFA 2020 --, estão, nesse momento, construindo acordos de cooperação multilaterais e multissetoriais. Eles asseguram uma abordagem mais sistêmica a problemas dessa ordem. São potenciais parceiros de solução.

Nessa linha, a cooperação internacional se coloca como quase condição de sucesso do combate ao desmatamento. Na troca de experiências, na construção de parcerias, no enfrentamento político global de problemas transnacionais, no encontro entre desafio e solução.

O mundo assiste de perto o que se passa com o uso do solo no Brasil. O fato de não termos equacionado todas as dificuldades não nos exime da obrigação de compartilhar nossos avanços, em especial com outros países tropicais em desenvolvimento -- bem como, e inclusive por isso --, de procurar neles e em alianças globais as soluções para nossas dificuldades.

ISABELLA VITALI é diretora para o Brasil do Proforest
FABÍOLA ZERBINI é coordenadora regional para América Latina do Tropical Forest Alliance (TFA 2020)

O Proforest e o TFA 2020 são membros da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. As autoras lideram o Grupo de Trabalho de Cooperação Internacional da Coalizão.

Artigo originalmente publicado no blog da Coalizão Brasil no HuffPost Brasil em 12/12/2016