Sequestro bom é sequestro de carbono

Por Cirino Costa Junior, Leda Tavares, Juliana Monti e Ângelo Gurgel

Para que as mudanças do clima não afetem severamente os meios de vida, os países precisam conjuntamente reduzir suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) pela metade a cada dez anos. Isso requer uma rápida e eficiente transição para uma economia de baixo carbono.

Nesse contexto, a agropecuária tem papel importante uma vez que é o segundo maior emissor global de GEE, atrás apenas do setor de energia. Ela precisa, ainda, suprir demandas crescentes por alimentos e outras matérias-primas. Para esse setor, na prática, sua contribuição para evitar as mudanças climáticas significa sequestrar carbono.

Esse cenário motivou a realização de dois eventos que reuniram pessoas de 40 países em Paris, em maio deste ano, e que contou com a presença da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Foram discutidos o papel dos atores envolvidos na produção e consumo de alimentos com relação às mudanças climáticas e o papel do sequestro de carbono nos solos para reduzir as emissões de GEE.

Os resultados dos encontros evidenciaram o protagonismo que a agropecuária pode ter. Com massiva e uniforme adoção de práticas de baixas emissões de GEE, esse setor é capaz de atender a demanda por alimentos da sociedade. E, apenas com o sequestro de carbono do solo, poderá contribuir com cerca de 10% da meta mundial de redução de emissões até 2100.

Contudo, para que isso aconteça, deve-se começar imediatamente uma articulação com a sociedade compreendendo a filantropia e estimulando empresas a assumirem compromissos para fomentar a adoção de boas práticas em suas cadeias de produção.

Esse processo seria ainda permeado pelo engajamento do sistema financeiro, estabelecimento de um simples e robusto sistema de quantificação e monitoramento das emissões e o desenvolvimento do mercado de carbono.

Por que a agricultura?

Mas, por que o solo apresenta esse potencial de sequestrar carbono? O carbono é o principal componente da matéria orgânica do solo, formada pelo processamento microbiológico dos resíduos orgânicos de plantas e suas raízes. Esse processo também disponibiliza nutrientes para o desenvolvimento da vegetação e devolve CO2 para a atmosfera, o qual é novamente capturado e fotossintetizado pelas plantas, formando o chamado ciclo do carbono.

A relação entre solo, planta e clima determina a quantidade de carbono estocado no solo, que varia de 30 a 800 toneladas por hectare e forma o maior reservatório da substância do sistema terrestre – cerca de 4,5 vezes maior que o estoque da vegetação nativa e 3,3 vezes maior que o da atmosfera.

A degradação dos solos, por sua vez, altera esse ciclo, dificultando que as plantas fixem CO2 e aportem resíduos suficientes para manter os níveis originais de carbono no solo. Nesse cenário, como os microorganismos continuam processando a matéria orgânica, as emissões de CO2 para a atmosfera superam a quantidade estocada.

Como consequência, o solo perde fertilidade, reduz sua capacidade produtiva e aumenta a concentração de CO2 na atmosfera, contribuindo para as mudanças climáticas globais. Hoje estima-se que aproximadamente 30% dos solos agropecuários no mundo apresentem algum grau de degradação, mas com potencial de se tornar reservatórios de carbono, caso boas práticas de manejo sejam adotadas.

O Brasil é um dos três maiores emissores do setor agropecuário mundial e a variação dos seus estoques no solo ainda não são contabilizados pelo inventário nacional. De acordo com os dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estuda em 2015, se essa contabilização for feita, as emissões reportadas do setor aumentariam em quase 10%.

Isso, principalmente, porque o Brasil possui uma área de pastagem com algum grau de degradação equivalente ao tamanho da Espanha (cerca de 40 milhões de hectares). Essas áreas emitem CO2 para a atmosfera em quantidade superior ao sequestro de carbono no solo que ocorre em áreas bem manejadas, como áreas agrícolas sob plantio direto, florestas plantadas e pastagens produtivas.

Vem daí a oportunidade de o Brasil estocar carbono no solo, reduzindo as emissões nacionais em conformidade com seu compromisso climático de recuperar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas.

Ao cumprir seus compromissos climáticos, o setor de agropecuária tem potencial de reduzir suas emissões pela metade. Mas, para isso de fato acontecer, o País deve aperfeiçoar seu sistema de monitoramento das emissões de GEE e atuar mais fortemente na gestão territorial, coibindo o desmatamento e fomentando a expansão agrícola em áreas já abertas, assim como repensar crédito, assistência técnica e infraestrutura para recuperação de áreas degradadas.

Em meio ao movimento global de pensar estratégias de produção para se evitar que as mudanças climáticas afetem nossa sobrevivência, o Brasil tem potencial de sequestrar carbono no solo e de ser protagonista em reduzir as emissões de GEE e aumentar sua produção agropecuária com qualidade e diferenciação. E o melhor, ancorado em práticas agropecuárias já existentes e prontas para serem implementadas em campo. Para evitar drásticas mudanças no clima, podemos contar com os solos, até mesmo para um bom sequestro.

CINIRO COSTA JÚNIOR é analista de clima e cadeias agropecuárias do IMAFLORA
LEDA TAVARES integra o programa Agricultura e Alimentos do WWF
JULIANA MONTI é coordenadora de sustentabilidade da ABAG
ANGELO GURGEL é professor adjunto e coordenador do mestrado profissional em agronegócio da FGV-EESP

Imaflora, WWF, ABAG e FGV são membros da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Os autores participam do Grupo de Trabalho de Agricultura de Baixo Carbono (ABC).

Artigo originalmente publicado no blog da Coalizão Brasil no HuffPost Brasil em 24/07/2017.