09/2026

Tempo de leitura: 5 minutos

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Da meta à escala: restauração brasileira ganha projeção internacional

Na COP 17 da Desertificação, país apresentou compromisso de recuperar mais de 163 mil km² até 2030, enquanto coletivo do Cerrado foi reconhecido pela ONU como referência mundial

Na COP 17 da Desertificação, Brasil assumiu o compromisso de recuperar ou restaurar mais de 163 mil km² de áreas degradadas até o final da década.Foto: Pedro Paiva

O mundo tem pouco mais de 124 milhões de hectares em processo de restauração, reabilitação ou gestão aprimorada — apenas 10,4% das áreas que os países se comprometeram a recuperar. O dado, apresentado no relatório Global Land Restoration Achievement Database: 2026 Report, da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), durante a 17ª Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD COP 17), dimensiona a distância entre os compromissos globais e a restauração efetivamente implementada.

A conferência, realizada em Ulaanbaatar (Mongólia), em agosto, também colocou em evidência uma agenda que vem ganhando espaço na atuação internacional da Coalizão Brasil: a conexão entre restauração, conservação da biodiversidade, enfrentamento das mudanças climáticas e desenvolvimento econômico a partir do uso sustentável da terra.

Na COP 17, o Brasil, que tem cerca de 28% do território nacional, ou 2,3 milhões de km², com algum nível de degradação, apresentou sua Meta Voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN) para 2030, composta por 17 submetas. O compromisso prevê recuperar ou restaurar mais de 163 mil km² de áreas degradadas até o final da década, por meio de iniciativas que incluem recuperação da vegetação nativa, sistemas agroflorestais, Unidades de Conservação, Territórios Indígenas, áreas de preservação permanente e bacias hidrográficas. Outros 3,51 milhões de km² estão contemplados em ações de prevenção, conservação e manejo sustentável.

Na América Latina, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), mais de 20 milhões de hectares estão sob processo de recuperação, e o Brasil aparece entre os países de destaque da região, ao lado de México e Colômbia.

Para Tainah Godoy, coordenadora de Relações Institucionais da Coalizão, as informações reforçam a necessidade de olhar para a restauração de forma integrada. “Os números globais mostram que ainda existe uma distância muito grande entre os compromissos assumidos e a restauração efetivamente implementada”, afirma.

“O país já reúne conhecimento e experiências concretas que podem colocá-lo em posição de destaque nessa agenda. A restauração pode ser a solução que conecta diretamente os desafios de desertificação, biodiversidade e clima. O próximo passo é transformar essa experiência em escala”, diz Godoy.

Monitoramento do território

Para que compromissos dessa dimensão possam ser acompanhados, entretanto, é fundamental saber o que está acontecendo no território. É nesse espaço que atua o Observatório da Restauração (OR), plataforma desenvolvida pela Coalizão e parceiros, que reúne, qualifica e dá transparência a informações sobre iniciativas de restauração no país. Atualmente, o OR reúne dados reportados de mais de 200 mil hectares em processo de restauração.

Mais do que contabilizar hectares, o monitoramento permite construir uma visão integrada sobre a atividade e produzir informações para orientar decisões.  “Não dá para dar escala ao que não se consegue enxergar. O país precisa saber onde a restauração está acontecendo, quem está fazendo e quais resultados estão sendo entregues”, afirma Godoy. “Quando esses dados aparecem, a restauração deixa de ser um conjunto de iniciativas isoladas e passa a ser uma agenda capaz de orientar políticas públicas, atrair investimentos e movimentar uma nova economia.”

A plataforma também trabalha em parceria com coletivos que atuam nos seis biomas brasileiros, aproximando experiências e informações produzidas nos territórios das estratégias nacionais de restauração.

Uma dessas redes, a Araticum —Articulação pela Restauração do Cerrado, ganhou projeção internacional durante a COP 17 ao ser reconhecida pela ONU como uma das World Restoration Flagships, grupo de iniciativas consideradas referências mundiais em restauração.

A Araticum reúne mais de 180 organizações dos setores público e privado, já mapeou 27 mil hectares em restauração ativa e estruturou uma cadeia de sementes nativas com mais de 150 espécies do Cerrado. Sua meta é alcançar 2 milhões de hectares sob restauração até 2030.

Na Caatinga, a Rede para Restauração da Caatinga (ReCaa), também parceira do OR, atua na articulação entre a agenda nacional e as iniciativas locais. Segundo Pedro Sena, conselheiro executivo da rede, a meta brasileira de neutralidade da degradação pode funcionar como uma referência para ações que vão além da restauração propriamente dita.

“A meta serve como uma baliza para as ações locais e regionais, integrando desde o combate direto à degradação via restauração até práticas complementares, como a agroecologia e o manejo integrado do fogo”, explica. Para ele, o próximo passo é garantir que os compromissos sejam acompanhados de perto e traduzidos em ações concretas nos territórios.

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