Membro do Conselho Estratégico da Coalizão analisa os impactos do El Niño sobre a produção de alimentos e aponta estratégias para aumentar a resiliência climática do sistema produtivo

A combinação entre mudanças climáticas e um El Niño de intensidade elevada, com um potencial para intensificar eventos climáticos extremos, somada à dependência de insumos importados para a produção de fertilizantes, coloca novos desafios para a produção de alimentos no Brasil. Para Rodrigo Castro, membro do Grupo Estratégico da Coalizão Brasil e diretor de País da Fundação Solidaridad, enfrentar esse cenário exige olhar para além das respostas imediatas de adaptação e buscar mudanças na própria estrutura dos sistemas produtivos.
Em entrevista a este boletim, Castro alerta para os impactos do El Niño sobre o calendário agrícola, explica como a diversificação pode aumentar a capacidade de resposta dos produtores e analisa o potencial dos bioinsumos e da biotecnologia para reduzir a dependência de fertilizantes, defensivos e outros agroquímicos.
Confira os principais trechos da entrevista.
Como um El Niño mais intenso, como o que está previsto para os próximos meses, pode afetar a safra brasileira?
Quando o fenômeno ficar mais agudo, entre novembro e fevereiro, ele coincidirá com a principal quadra produtiva de grãos no Brasil. As principais colheitas de grãos, como milho, feijão e soja, acontecem a partir de março, abril e maio. Também devemos considerar o ciclo de culturas como laranja e café. Ou seja, o principal período produtivo da agricultura brasileira coincide com o momento de maior imprevisibilidade climática. Isso aumenta o risco de quebra de safra, pressiona os preços dentro e fora do Brasil e gera insegurança alimentar.
O que torna a associação entre degradação ambiental e eventos climáticos extremos especialmente preocupante?
Quando você combina a degradação ambiental, o desmatamento e a redução da cobertura de vegetação original com um fenômeno como um El Niño de grande intensidade, temos um cenário muito ruim. E não estamos preparados para lidar com os impactos. Na produção de alimentos, uma estratégia para aumentar a resiliência é a diversificação.
Na Transamazônica, por exemplo, acompanhamos, pela Fundação Solidaridad, pequenos produtores que têm a pecuária como atividade histórica, mas que estão buscando trabalhar com outros produtos, como açaí e cacau. A ideia é diversificar a produção na pequena propriedade rural para que o produtor tenha várias oportunidades dentro do mesmo sistema. Em um ano em que o gado vai melhor, ele tem essa fonte de renda; em outro, o cacau ou o açaí pode ter um desempenho melhor. Assim, em anos como este, ele pode ter uma compensação com outra produção que seja menos afetada pela estiagem.
A crise dos fertilizantes causadas pelas guerras que o mundo enfrenta hoje pode ser uma oportunidade para reduzir a dependência brasileira de insumos externos?
A questão passa pelo Plano Nacional de Fertilizantes, que foi desenhado a partir da guerra na Ucrânia, em 2022, e tem entre seus principais pilares a redução da dependência de insumos importados que são os ingredientes básicos dos fertilizantes químicos. Mas, além de buscar matérias-primas no Brasil e investir na industrialização, existe uma terceira frente, que é tornar a agricultura menos dependente não apenas de fertilizantes, mas também de defensivos, pesticidas e outros agroquímicos.
O que seria, na prática, uma agricultura menos dependente desses insumos?
É uma agricultura mais integrativa, que use mais os ciclos naturais, a ciclagem de nutrientes, o biocontrole e os bioinsumos. Há também possibilidades como o uso de engenharia genética e o enriquecimento de bactérias no solo, para fazer uma decomposição mais eficiente e permitir que a planta absorva melhor os nutrientes que estão na terra.
O que falta para que alternativas como os bioinsumos ganhem escala?
Falta mais fomento às empresas que desenvolvem biotecnologia e bioinsumos, para que elas possam ter as linhas de investimento necessárias para crescer e produzir em grande escala. Para isso, é preciso política pública, sistema de incentivos fiscais e financiamento. O país já tem feito algo nesse sentido, mas ainda de forma muito incipiente.
E qual é o papel da agricultura regenerativa na construção de sistemas produtivos mais resilientes?
A agricultura regenerativa é um caminho sem volta e vai crescer cada vez mais. O novo paradigma são os sistemas produtivos que possam oferecer, ao mesmo tempo, adaptação ou resiliência climática e redução de emissões. Se temos sistemas produtivos que conseguem unir inteligência climática, resiliência e adaptação, são eles que deveriam ser priorizados, a partir da criação de linhas de pesquisa, investimento e crédito. O futuro da produção de alimentos passa por essa abordagem porque ela pode contribuir, ao mesmo tempo, para enfrentar a crise climática e promover a segurança alimentar.