Encontro reuniu especialistas para analisar os desafios do uso da terra no Brasil e os caminhos para aumentar a influência da rede no próximo ciclo político

A Coalizão Brasil realizou, no dia 3 de julho, a sua 1ª Plenária de 2026. Com transmissão online e a presença de cerca de 70 pessoas, o evento foi marcado por avaliações do contexto geopolítico mundial e do cenário político e eleitoral no país. O diagnóstico apontou desafios e oportunidades para inserir o uso da terra no debate nacional sobre o desenvolvimento socioeconômico do Brasil nos próximos anos.
Os caminhos para levar as propostas da rede à campanha eleitoral foram discutidos em um painel com especialistas de diferentes setores. Outro bloco da plenária foi dedicado à apresentação dos resultados do Grupo de Trabalho (GT) 10 Anos, responsável por propor mudanças na estrutura de governança e nos espaços de debates da Coalizão. O objetivo é tornar sua atuação mais estratégica frente aos desafios econômicos, sociais, ambientais e climáticos enfrentados pelo Brasil.
Ao final do encontro, foi anunciada a saída de Carolle Alarcon da gerência-executiva da rede. A função será ocupada interinamente por Iuri Cardoso, atual coordenador de Advocacy.
Agenda global
Um levantamento sobre a geopolítica mundial, preparado pela consultoria de relações governamentais BMJ, mapeou transformações com potencial de impactar o comércio internacional de commodities. Entre elas, destaca-se o novo Plano Quinquenal da China, anunciado em março, que concentrará investimentos em áreas como biotecnologia, agricultura de precisão e segurança hídrica.
“A agricultura foi elevada a nível de segurança estratégica nacional chinesa, o que muda o jogo para a produção agrícola do Brasil”, afirmou José Pimenta, diretor de Relações Governamentais e Comércio Internacional da BMJ. “Temos que estar atentos a potenciais lacunas de competitividade do Brasil. A China quer reduzir sua dependência externa de commodities agrícolas. O comércio com a China dos últimos 40 anos não será o mesmo nos próximos 40 anos.”
No cenário político brasileiro, por sua vez, outras agendas podem ganhar importância ao longo dos próximos meses, como a segurança alimentar, que deve ser abordada de forma pontual na campanha eleitoral, e o combate às queimadas, especialmente diante da ocorrência do fenômeno climático El Niño.
Oportunidades no cenário eleitoral
As eleições de 2026 abrem uma janela estratégica para reposicionar a agenda de uso da terra no centro do debate sobre o desenvolvimento do país, com eficiência econômica e responsabilidade ambiental. A partir dessa premissa, a Coalizão organizou um painel em sua plenária para refletir sobre como os temas abordados pela rede podem dialogar com prioridades de candidatos e partidos, contribuindo para formular políticas públicas capazes de conciliar produção, conservação ambiental, inclusão social e geração de renda.
Cofacilitador da Coalizão, Paulo Pianez destacou que a rede lançou, em junho, um documento com propostas para os candidatos às eleições de 2026: “Se conseguirmos colocá-las em prática e dar escala a elas, transformaremos a realidade do Brasil”, afirmou.
A discussão reuniu Ludmila Rattis, pesquisadora do Woodwell Climate Research Center; Marcello Brito, coordenador do Centro Agroambiental da Fundação Dom Cabral, e Mariana Oliveira, diretora de Florestas e Uso da Terra do WRI Brasil.
Para Ludmila Rattis, o país deve adotar tecnologias tropicais e diversificar a produção no campo. “O Brasil se tornou uma potência agrícola graças a muitas pesquisas, mas também porque importou um pacote da Revolução Verde que não tem muito a ver com nossa realidade climática e está dando sinais de fracasso iminente” alertou. “Se não começarmos a nos apoiar em tecnologias tropicais, a situação vai piorar. Também precisamos diversificar a produção. Isso é resiliência.”
A pesquisadora chamou atenção ainda para as ameaças à capacidade de armazenamento da água nos solos, como o desmatamento no Cerrado. Segundo ela, esse tema, a implementação do Código Florestal e outras medidas precisam ser considerados na construção de paisagens mais resilientes às mudanças climáticas: “Temos que pensar como vamos resistir a ondas de calor e outros fenômenos, e isso exige planejamento local, regional e nacional.”
Já Mariana Oliveira, do WRI Brasil, apontou o papel da vegetação nativa conservada para aumentar produtividade e competitividade e promover a transição necessária no uso da terra. “É preciso compreender o capital natural como parte da solução. Essa pode ser a chave para a mudança”, assinalou.
Para Oliveira, também é importante levar a mensagem aos mandatários do próximo ciclo político de que o governo não está sozinho sessa agenda. “O setor privado tem papel importante para trazer soluções à implementação. Existe um setor produtivo organizado que pode apoiar e contribuir para a ambição climática do país. E o terceiro setor, para além de produzir dados e trabalhar com a academia, pode dar contribuições a essa transição”, destacou.
Marcello Brito, representante da Fundação Dom Cabral, alertou que o cinismo tomou conta dos debates em torno dos temas abordados pela Coalizão. Segundo ele, apesar das evidências científicas, as discussões – inclusive no âmbito das Conferências do Clima das Nações Unidas – tornaram-se mais pragmáticas e orientadas por interesses econômicos.
Essa postura, avaliou, deve ser levada em conta pela Coalizão na apresentação de suas propostas. “Durante os últimos anos, desenvolveu-se uma imunidade a boas ideias que não têm poder de barganha”, avaliou.
Superar esse cenário, segundo Brito, exige analisar que atores podem perder com a concretização das propostas, como implementar e monitorar programas que não dependam de ciclos políticos e de que maneira manter a resiliência necessária até que os objetivos sejam alcançados. “A partir desses pontos, encontraremos formas de enfrentar o cinismo que tomou conta das agendas econômica, política e ambiental”, destacou.
A influência do cenário internacional também foi avaliada pelos painelistas. Brito observou que está em curso uma transformação nas relações entre países e entre governos e empresas, com a entrada de novos temas em discussões, como o acesso a terras raras. Nesse contexto, o Brasil precisa definir se deseja liderar essas conversas:
“Partimos sempre da ideia de que temos vantagens comparativas, competitivas e produtivas em tudo que depende do uso do solo. Mas a linguagem mudou e, para voltar à vitrine, precisamos discutir quais são as vantagens geopolíticas, demonstrando que temos o que outros países ou concorrentes não possuem e estão demandando”, afirmou.
Mariana Oliveira reforçou que o destaque internacional obtido pelo Brasil nos últimos anos deve ser refletida na agenda doméstica. “Nossa agenda ganhou projeção em cúpulas sediadas aqui nos últimos anos, como o G20 e a COP 30. Não podemos ignorar nosso papel no mercado internacional, mas temos que entender como traduzir isso para o cenário doméstico e para o debate eleitoral”, ressaltou.
Nova estrutura da Coalizão
A última parte da plenária foi marcada pela apresentação da nova estrutura de governança da Coalizão, após meses de atuação do Grupo de Trabalho (GT) 10 Anos da rede.
Entre as principais mudanças estão a criação de uma Diretoria Executiva e a reorganização das atuais 12 forças-tarefa em quatro núcleos temáticos. As alterações serão implementadas ao longo do segundo semestre deste ano. Leia mais sobre elas nas outras reportagens deste boletim.
Assista à íntegra da Plenária aqui.