01/2026

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‘É preciso resistir à polarização rasa e trazer à mesa quem quer contribuir’, diz Fernando Sampaio

Ex-cofacilitador elogia avanços recentes da agenda agroambiental, como ampliação da agricultura regenerativa, adoção de bioinsumos e redução do desmatamento

Para Sampaio, ‘é melhor participar da construção de uma proposta do que lamentar a posteriori uma política pública desastrosa’. Foto: Maressa Andrioli/Ateliê Selva

O Brasil encontra-se em um momento estratégico em sua agenda climática. Este é o diagnóstico do engenheiro agrônomo Fernando Sampaio, que, em dezembro, concluiu seu ciclo de dois anos na cofacilitação da Coalizão. Representante do setor privado, Sampaio teve a gestão marcada pela articulação em torno de marcos regulatórios cruciais, como o mercado de carbono, e pelo fortalecimento de iniciativas voltadas à rastreabilidade bovina e à valorização da floresta em pé.

Seu período à frente da rede coincidiu com o protagonismo brasileiro em eventos internacionais, como a presidência do G20, em 2024, e da COP 30, no ano passado. Nessas cúpulas, bem como em diversos momentos, Sampaio foi um dos principais porta-vozes da Coalizão na promoção da convergência entre o agronegócio e a conservação ambiental.

Na plenária realizada em dezembro, em São Paulo, Sampaio passou a cofacilitação do movimento para Paulo Pianez, diretor global de Sustentabilidade e Relações Governamentais da MBRF. Em 2026, Sampaio permanecerá como membro do Grupo Estratégico da Coalizão, principal instância de governança da rede, e será o líder do Grupo de Trabalho 10 Anos, que definirá a governança e as prioridades da Coalizão para a próxima década.

Nesta entrevista, ele faz um balanço de sua trajetória, analisa os desafios da polarização política e reforça a importância de um “cérebro coletivo” para enfrentar a crise climática.

Qual balanço você faz de seus dois anos à frente da cofacilitação da Coalizão?

Podemos dizer que foram dois anos bastante agitados. Tivemos discussões importantes envolvendo clima e uso da terra acontecendo no Executivo e no Legislativo. Algumas delas foram mais difíceis, como o debate envolvendo licenciamento ambiental. No entanto, em outras, tivemos avanços, como o Plano Nacional de Bioeconomia, propostas para a rastreabilidade e para a regulamentação do mercado de carbono – todas essas foram construídas com apoio da Coalizão. A rede também foi o berço de novidades como os Observatórios da Restauração e do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), desenvolveu projetos de silvicultura de nativas e liderou iniciativas como o Pacto pelo Código Florestal. Vale lembrar que, nesse período, o Brasil também esteve em destaque com a presidência do G20 e a organização da COP30, eventos para os quais também levamos propostas destacando as soluções baseadas na natureza e uso da terra.

O cenário para a agenda agroambiental, então, é positivo?

Acho que na agenda agroambiental existem movimentos importantes acontecendo. O primeiro é de fato o avanço da agricultura regenerativa no campo, e a revolução que os bioinsumos estão fazendo. Agricultura regenerativa é um ganha-ganha para o produtor e para o clima. Podemos continuar produzindo e exportando sem necessidade de desmatamento e reduzindo emissões. O outro movimento é o da redução do desmatamento, fruto das políticas governamentais, mas que vem acompanhado de um crescente interesse pelo potencial da bioeconomia e de soluções, como as concessões florestais. É essa combinação, entre dar valor à floresta em pé e ter uma agropecuária melhor nas áreas já consolidadas, que vai ditar nosso futuro. O que não quer dizer que estejamos livres de retrocessos, que são patrocinados, sobretudo, por uma certa política que acredita em um modelo de desenvolvimento anacrônico e extrativista nas regiões de fronteira.

E o que o marcou, pessoal e profissionalmente, nesse período na cofacilitação?

Profissionalmente, eu entendi que precisamos nos antecipar à política e aos retrocessos. É melhor participar da construção de uma proposta contribuindo ativamente para que ela traga avanços, do que lamentar a posteriori uma política pública desastrosa. E, pessoalmente, continuo acreditando em redes como a Coalizão como um ambiente de debate de ideias, capaz de gerar propostas que tragam benefícios a todos no longo prazo. É preciso resistir à polarização rasa e trazer à mesa quem quer e pode contribuir.

De que forma, com sua experiência, pretende contribuir com o seu sucessor, Paulo Pianez? E qual sua principal mensagem a ele?

 Acho que um grande legado neste período –que não é só meu, mas da cofacilitação e da equipe – foi o de provocar a reflexão sobre os 10 anos da Coalizão, que ocorrerá em um novo Grupo de Trabalho (GT). Será o momento de avaliar nosso modo de funcionamento e foco para sermos mais efetivos. Acredito que isso irá ajudar e muito o trabalho dos facilitadores. E diria ao Paulo que o facilitador tem que ter, sobretudo, capacidade de escuta. Entender as dores em campos diferentes e propor caminhos. Essa é minha recomendação a ele.

Como o GT 10 anos tem atuado? E quais as entregas esperadas para este ano?

Temos bem clara qual é a visão da Coalizão. O que precisamos é definir um foco, onde podemos fazer a diferença, reavaliar nossa estrutura de governança e a forma como temos atuado, e até a estrutura necessária para dar mais efetividade ao trabalho. Durante o ano passado tivemos vários momentos de diálogo com lideranças e com a rede, incluindo a última plenária. O GT agora vai se debruçar sobre isso para gerar uma proposta nos próximos meses.

Na sua opinião, como será o papel do cofacilitador do setor privado em um ano eleitoral, com o acirramento da polarização política?

Fugir da polarização, rumo a uma agenda de convergência. O Brasil é um ator global nas agendas de segurança alimentar e climática. E, especialmente aqui, o uso da terra é central para que o país atinja todo seu potencial. Podemos ter desenvolvimento econômico, produzindo, exportando e, ao mesmo tempo, conservando e reduzindo emissões. Para alcançar isso, precisamos avançar em ações que interessam a todos – empresas e organizações da sociedade civil – e que trazem investimentos, mercado, renda e emprego. Essa mensagem de convergência tem que ser martelada à esquerda e à direita, não interessa quem sejam os candidatos ou quem ganhe. E precisamos muito trazer mais o setor privado, sobretudo aquele mais relevante para o uso da terra, para perto da Coalizão. 

Gostaria de deixar alguma mensagem aos membros e à equipe da Coalizão?

Divulguei uma mensagem no final do ano passado entre os membros da Coalizão para agradecer a equipe incrível, minhas amigas cofacilitadoras (Renata Piazzon e Karen Oliveira) e toda a rede pela honra que foi poder participar desse processo. Para mim, já se foi o tempo em que a liderança era exercida por uma ou outra pessoa. Quanto mais complexos nossos desafios como sociedade se tornam, mais precisamos de redes que tragam expertises, visões e conhecimentos diferentes na busca por soluções comuns. A Coalizão para mim é esse grande cérebro coletivo que pode e deve exercer uma liderança legitimada por essa convergência advinda de pessoas e organizações que a compõem.

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