Encontro debateu oportunidades para atuação abertas após a COP 30 e apontou temas prioritários de incidência, como agricultura regenerativa e restauração

A 2ª Plenária de 2025 da Coalizão Brasil, realizada em 4 de dezembro, em São Paulo, reuniu lideranças e membros da rede para fazer um balanço da atuação na Conferência do Clima de Belém (COP 30), discutir o cenário político e eleitoral em 2026 e dar os primeiros passos na construção da estratégia da próxima década.
Abrindo o encontro, Carolle Alarcon, gerente executiva da rede, destacou que 2025 foi um ano particularmente intenso, com avanços importantes em políticas públicas de clima, bioeconomia, biodiversidade e financiamento, mas também marcado por grandes desafios de implementação dessas políticas. Na sequência, foi anunciada a transição na cofacilitação da Coalizão. O engenheiro agrônomo Fernando Sampaio encerra seu ciclo de dois anos, e Paulo Pianez, diretor global de Sustentabilidade e Relações Governamentais da MBRF, assume a função, ao lado de Karen Oliveira, diretora para Políticas Públicas e Relações Governamentais da TNC Brasil, que completou seu primeiro ano como cofacilitadora.
Pianez afirmou que espera dar sequência aos resultados significativos que a Coalizão tem alcançado. “Clima, florestas e agricultura parecem entes que não se misturam. Mas, na Coalizão, vejo um espaço para entender os vários contextos em que os atores de cada uma dessas frentes enxergam o mundo e buscar a convergência”, disse o novo cofacilitador.
Balanço da COP 30 e desafios das negociações
Caroline Rocha, diretora-executiva do LACLIMA, organização que levou 22 pessoas para acompanhar 17 trilhas de negociação em Belém, fez um balanço dos principais resultados da COP 30. Em sua fala, destacou alguns dos pilares da presidência brasileira da cúpula, entre eles a meta global de adaptação (GGA) e o balanço global das ações climáticas (Global Stocktake), e afirmou que as negociações foram marcadas por disputas intensas.
No caso da GGA, chamou atenção, segundo sua análise, o processo conturbado de definição dos indicadores, com mudanças significativas de última hora e críticas de países da América Latina e do Caribe quanto à falta de transparência. Rocha também apontou o risco de tentativas de ampliar o conceito de “melhor ciência disponível” para além do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), movimento que poderia enfraquecer a base científica do regime climático. A estratégia, porém, não surgiu efeito, e a decisão final da COP reafirmou o papel central do painel.
A diretora da LACLIMA ressaltou, ainda, que os “mapas do caminho” lançados pela presidência da COP para o fim do desmatamento e dos combustíveis fósseis devem ganhar desdobramentos até a COP 31. Em Belém, a Coalizão participou de mais de 30 eventos, realizados em cerca de dez espaços institucionais e assistidos presencialmente por mais de 1.400 pessoas. A rede liderou debates de alto nível sobre rastreabilidade e cadeias livres de desmatamento e reforçou o papel do Observatório da Restauração, na agenda ligada à recuperação de 12 milhões de hectares de vegetação em todo o país. Além disso, a Coalizão atuou em pautas como bioeconomia e pagamento por serviços ambientais, e fortaleceu a narrativa brasileira sobre agricultura tropical regenerativa no âmbito do Sharm el-Sheikh Joint Work.
Diário da COP: Veja como foi a atuação da Coalizão dia a dia em Belém
Em uma rodada de diálogo aberto, os participantes da plenária listaram oportunidades abertas pela COP para a Coalizão. Caberia à rede estabelecer uma ponte entre setores e realidades historicamente diferentes – como agronegócio, ambientalistas e setor financeiro –, posicionando-se como alternativa para o esgotamento do multilateralismo.
Os participantes da dinâmica recomendaram, ainda, que a Coalizão assuma protagonismo na agenda de implementação. A rede deve atuar para reduzir a distância entre teoria e prática, especialmente na camada da agricultura familiar e de pequenos produtores, envolvendo-se em elementos centrais para garantir a transição climática justiça, como sistemas alimentares, assistência técnica e extensão rural.
Os próximos dez anos: atuar de forma diferente, mas com mesma visão de longo prazo Fernando Sampaio, agora ex-cofacilitador da Coalizão, apresentou a proposta de criação do Grupo de Trabalho 10 Anos, dedicado a revisar como a rede pretende implementar sua visão para 2030-2050.
O GT trabalhará em quatro eixos principais: prioridades temáticas da Coalizão; governança; estrutura (recursos humanos e institucionais); e financiamento (para sustentar a operação da rede).
Os participantes da plenária elencaram uma série de temas em que a Coalizão deve incidir no ano que vem, como a erradicação do desmatamento e a recuperação de áreas degradadas, aproveitando a pressão do ano eleitoral para dialogar com candidatos. Já a linha orientadora para a próxima década inclui uma série de mudanças internas, como a reestruturação das forças-tarefa, e o trabalho com novos públicos, como o pequeno produtor rural.
“Essa foi uma plenária diferente, porque mostrou como, de forma focada, conseguimos construir tantos indicativos concretos para a atuação da Coalizão”, elogiou a cofacilitadora Karen Oliveira. “Convido todas e todos a manter esse espírito no próximo ano, quando estaremos juntos discutindo os próximos dez anos da rede.”