08/2025

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Projeto de Silvicultura de Nativas acelera transição para uma nova economia de base florestal

Do campo à formulação de políticas públicas, iniciativa aposta em pesquisa, inovação e engajamento para transformar o setor florestal

Miguel Calmon, colíder da Força-Tarefa Silvicultura de Nativas da Coalizão. Foto: Saulo Frauches

O projeto “Melhorar a conservação e reduzir a pressão sobre o desmatamento ilegal na Amazônia por meio de P&D para espécies nativas”, uma parceria entre a Coalizão Brasil e o Parque Científico e Tecnológico do Sul da Bahia (PCTSul), com participação de várias instituições, e que visa promover e dar escala à atividade de silvicultura de espécies nativas, entra em agosto em seu terceiro ano de atividades, iniciadas a partir de uma doação de US$ 2,5 milhões feita pelo Bezos Earth Fund (BEF).

Atuante na Amazônia e na Mata Atlântica, o projeto já conta com dois sítios de pesquisa e polos de referência em cada um dos biomas. Uma das metas do projeto é, agora, atrair investidores e financiadores, formulando planos de negócio e estimulando a criação e implementação de políticas públicas que incentivem a silvicultura de espécies nativas. “A ideia é criar as bases para uma nova economia florestal, que gere emprego e renda, conserve a biodiversidade, minimize os efeitos das mudanças climáticas e fortaleça o papel do Brasil como líder na transição para modelos produtivos sustentáveis e resilientes”, explica Miguel Calmon, colíder da Força-Tarefa Silvicultura de Espécies Nativas da Coalizão e membro do Conselho Diretivo do PP&D-SEN.

Calmon, que também é diretor sênior de Programas da Conservação Internacional (CI) do Brasil, conta, na entrevista a seguir, o planejamento do projeto para este terceiro ano. 

Quais os principais objetivos e projetos para o terceiro ano do Programa de Silvicultura de Nativas?

Precisamos enfrentar alguns desafios estratégicos para colocar a silvicultura de espécies nativas no patamar que consideramos ideal para o Brasil. Queremos consolidá-la como uma grande opção para a nova economia florestal, aproveitando as oportunidades que surgiram nos últimos dois anos. Entre as prioridades, está manter um trabalho intenso de advocacy, dando visibilidade ao papel da silvicultura de nativas em diferentes políticas públicas. Isso envolve tanto o fortalecimento de iniciativas já existentes quanto o estímulo a novas frentes, para que o país se posicione como protagonista mundial nesse campo.

A silvicultura está contemplada em quais políticas públicas?

Em algumas políticas importantes, como o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), o Plano ABC+ e o Plano Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas (PNCPD). Nessas frentes, a silvicultura de espécies nativas pode contribuir desde a produção de madeira e produtos florestais não madeireiros até aumentar o retorno financeiro de sistemas integrados de produção, como os silvipastoris. Nosso trabalho de advocacy agora é voltado para a implementação prática dessas diretrizes. Por isso é essencial um marco regulatório adequado para a silvicultura de nativas. Além disso, queremos “colocar no chão” o que está no papel — e isso inclui levar lideranças e tomadores de decisão para conhecer experiências bem-sucedidas, mostrando de perto o potencial econômico, social e ambiental da atividade.

Por que é preciso um marco regulatório para silvicultura?
Não adianta incentivar o plantio se, na hora de colher e comercializar, o produtor enfrenta barreiras como taxas excessivas e burocracia. Precisamos de um marco regulatório que facilite e estimule a atividade, especialmente em áreas degradadas. Isso significa reduzir exigências desnecessárias, garantir segurança jurídica e criar condições para que o investimento seja atraente e viável, tanto para pequenos quanto para grandes produtores. Ou seja, os proprietários, investidores, financiadores e empresas devem ser incentivados a converter áreas degradadas em áreas florestais produtivas.

Além dessas visitas a projetos, o que mais tem sido feito para provar todo esse potencial da silvicultura de nativas para lideranças políticas, financiadores e produtores rurais?

São diversas frentes. Uma delas é o engajamento dos atores dos diferentes elos da cadeia produtiva. Outra é a formulação de planos de negócios para áreas mapeadas com grande potencial silvicultural e, ainda, elaboração de estudo inédito que está sendo liderado pela Coalizão e que vai avaliar o impacto econômico da silvicultura de nativas no Brasil. A ideia é ir além do retorno financeiro para o investidor, mensurando também benefícios como geração de empregos, aumento de divisas, exportações e serviços ambientais. Esses dados serão fundamentais para fortalecer o papel da atividade nas políticas públicas e atrair mais apoio.

Quais são as capacitações previstas para este ano?
Capacitar é essencial para viabilizar uma nova economia florestal com espécies nativas. Estamos falando de treinar desde profissionais que prestarão assistência técnica até agricultores familiares, gestores de unidades de conservação, assentados rurais, povos indígenas e comunidades locais. O conteúdo abordado vai de técnicas de coleta de sementes e produção de mudas de alta qualidade até manejo, manutenção e integração com outros sistemas produtivos. Além das capacitações presenciais, vamos lançar até o fim do ano um curso EAD, em parceria com o Serviço Florestal Brasileiro, com a participação de cerca de 20 pesquisadores e acesso aberto. A ideia é combinar a formação remota com o acompanhamento em campo, garantindo que o conhecimento seja aplicado na prática.

E como está o interesse do setor privado pela silvicultura de nativas?

Temos visto um interesse crescente do setor privado, com novos investimentos e startups entrando no mercado de silvicultura de nativas. Um marco importante foi a criação, pela Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), de um grupo de trabalho específico para restauração e silvicultura de nativas. Isso coloca o tema dentro de uma das cadeias mais estruturadas e bem-sucedidas do setor florestal, abrindo novas oportunidades de integração com indústrias já consolidadas.

A comunicação constante e estratégica tem sido um divisor de águas. Ao divulgar regularmente resultados, histórias e avanços, conseguimos mudar a percepção sobre a silvicultura de nativas e criar interesse em diferentes públicos. Esse trabalho nos fortalece em eventos nacionais e internacionais e nos ajuda a apresentar, com orgulho, tudo o que foi construído desde 2016 — mostrando que estamos apenas no início de uma jornada promissora para o Brasil e para o mundo.

Explique, por favor, sobre as áreas mapeadas com grande potencial para silvicultura de nativas.

Mapeamos três clusters prioritários para silvicultura de nativas na Amazônia — dois no Pará e um em Rondônia. Essas áreas foram escolhidas após uma análise espacial detalhada, considerando logística, infraestrutura, experiências já em andamento e impacto potencial na economia local. Estamos desenvolvendo modelos específicos para cada cluster, variando o número de espécies, tempo de corte e tipo de manejo, e incluindo arranjos agroflorestais com culturas como cacau, açaí e cupuaçu. O objetivo é apresentar esses modelos em “roadshows” para investidores e financiadores nacionais e internacionais. Vamos também incluir apresentações para governos e prefeituras das regiões envolvidas, garantindo alinhamento com quem está no território.

Nosso objetivo é engajar a sociedade, e isso significa levar informação qualificada a quem pode investir, apoiar ou se beneficiar da silvicultura de nativas. Isso inclui produtores rurais, comunidades locais, bancos públicos e privados, investidores de mercado de carbono e outros parceiros estratégicos. Trabalhamos para mostrar o valor econômico e social dessa atividade e para atrair novos atores para a agenda. Hoje, contamos com uma rede ampla de parceiros, e organizamos eventos para compartilhar resultados e integrar novos participantes a essa grande mobilização pela silvicultura.

De que forma a Força-Tarefa (FT) Silvicultura de Nativas está inserida nesse trabalho?
Tudo o que fazemos está ligado à FT. Foi ela que nos permitiu olhar para além da pesquisa e incluir temas como mercado, marco regulatório e financiamento na agenda. Muitas das diretrizes que seguimos hoje nasceram ali. A força-tarefa é o espaço onde discutimos lacunas, identificamos oportunidades e definimos prioridades para transformar a silvicultura de nativas em uma nova economia florestal. Com o PP&D-SEN e o apoio do Bezos Fund, temos a capacidade de executar grande parte das demandas que surgem desse grupo, e isso cria uma relação direta: a FT aponta o caminho e nós trabalhamos para colocar as ideias em prática. Sempre com o princípio de que a silvicultura de nativas precisa ser sustentável e inclusiva, beneficiando desde agricultores familiares até grandes empresas.

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