Fundadores da rede relembram desafios da convivência produtiva, que a tornaram um espaço de referência no diálogo entre empresas e a sociedade civil organizada

Há dez anos, em 2015, acontecia a COP 21, cujo maior resultado foi o Acordo de Paris. Os países signatários desse tratado se comprometeram a estabelecer metas de redução de suas emissões de gases de efeito estufa, num esforço para limitar o aumento médio da temperatura global a menos de 2 graus Celsius em relação à era pré-industrial. Foi nesse contexto que nasceu a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.
Os fundadores da rede contam que, já naquela época, o desmatamento e as mudanças no uso da terra eram os principais responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa no Brasil. Por isso, para enfrentá-las, era essencial promover o diálogo entre os setores florestal e do agronegócio e as organizações da sociedade civil atuantes na agenda climática.
O embrião da Coalizão surgiu em 2014. “O país estava em uma discussão muito polarizada sobre o Código Florestal, e a COP 15, em Paris, seria em menos de um ano. Havia uma grande fragmentação das organizações que tratavam do tema sobre uso da terra e mudanças climáticas”, lembra Roberto Waack, um dos fundadores do movimento e, à época, conselheiro do Instituto Ethos. “Cada uma estava fazendo esforços de forma individual. Era preciso uni-las e colocá-las para conversar com empresas e associações setoriais da área florestal e do agro para que se concretizasse uma proposta para contribuir com o governo, para o Brasil apresentar algo robusto na COP.”
Outros empresários, também atuantes no Conselho do Ethos – Guilherme Leal, cofundador da Natura, e José Luciano Penido, à época presidente do Conselho de Administração da Fibria –, decidiram acionar contatos relacionados aos setores envolvidos na discussão. Três deles foram Marina Grossi, presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), Miriam Prochnow, da Apremavi (Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida), e Carlos Rittl, do Observatório do Clima.
Parte desse grupo já estava envolvida no Diálogo Florestal, iniciativa que promove, há 20 anos, a interação entre representantes de empresas, associações do setor florestal, organizações da sociedade civil e outros atores para a construção de soluções para a conservação de paisagens sustentáveis.
“O Diálogo Florestal tinha a percepção de que era preciso ampliar a discussão para além do setor florestal, mas ali não era esse fórum”, conta Prochnow, fundadora dessa iniciativa. “O Penido, também atuante no Diálogo, levou a ideia para outros empresários e assim começou a Coalizão”, diz.
Waack conta que foi o empresário quem propôs que cada um chamasse os conhecidos nos temas clima, florestas e agricultura para conversar. “A proposta era fazer uma reunião uma semana antes do Natal de 2014, mas, como é um período em que é muito difícil reunir pessoas, imaginamos que não daria em nada. Mas cerca de 40 pessoas se encontraram em uma sala de hotel, compondo um espectro bem amplo e diverso desses setores”, recorda.
Dessa reunião, saíram anotações que, depois de discutidas, se tornaram o Livro Verde da Coalizão, consolidado com o auxílio de Luana Maia, a primeira pessoa a ser chamada para atuar no que se tornaria a coordenação do movimento. O dia de lançamento do documento é considerado a data de nascimento da rede: 24 de junho de 2015.
Confira, nos depoimentos de fundadores e participantes das primeiras reuniões, como foi o nascimento da Coalizão.
“Fui à primeira reunião representando a organização onde eu trabalhava na época, a Conservação Internacional. A proposta desse encontro era organizar, junto a entidades plurissetoriais, um material para influenciar o governo brasileiro a dar uma resposta ao Acordo de Paris, em vez de cada empresa ou organização da sociedade civil se apresentar individualmente. O combinado foi nos concentrarmos apenas em questões sobre as quais todos concordavam. O que não houvesse consenso, ficaria de fora. E há sempre, até hoje, muito mais pontos em que é possível encontrar objetivos comuns do que questões divergentes.” – Beto Mesquita, membro do Grupo Estratégico da rede e diretor de Florestas e Políticas Públicas da BVRio.
“Logo no início, nós buscamos não o consenso, mas o consentimento. Outro ponto muito importante também, como pilar da Coalizão, é que tudo bem ter conflito. Conflito faz parte da diferença, das diferentes visões de mundo. É importante você ter e reconhecer um conflito. O que não pode haver é confronto. E essas questões foram muito importantes no processo de construção da Coalizão.” – Roberto Waack, membro do Grupo Estratégico da rede, membro do Conselho de Administração da Marfrig e presidente do Conselho do Instituto Arapyaú.
“A convivência produtiva entre diferentes atores e a efetividade de uma contribuição ao governo que pudesse inspirar e reforçar as iniciativas do Brasil no cenário internacional eram os principais desafios já na primeira reunião. Havia uma desconfiança natural no ar, mas, também, a busca de pontos comuns, complementares e mesmo convergentes. Valeu muito a coragem e espírito público dos membros, de se exporem em um ambiente novo e diverso. O modelo a que se chegou, baseado no consentimento, foi essencial.” – Kalil Cury Filho, CEO da Partner Desenvolvimento.
“Sempre se espera mais das NDCs, e até hoje é assim. Mas tenho certeza de que a primeira versão da Contribuição Nacionalmente Determinada, que o Brasil levou à COP 21, teve influência do trabalho inicial da Coalizão. Quando a sociedade civil se organiza, juntamente com atores importantes do mercado, o governo ouve.” – Miriam Prochnow, fundadora e diretora da Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi).
“Por meio do diálogo entre os participantes, foi possível achar um eixo comum – o clima – e como essa questão deveria ser tratada de forma conjunta com o uso da terra. Surgiu daí uma Coalizão inédita, que não havia em nenhum outro país. A rede nasceu como um conjunto de pessoas e entidades de maneira informal, apesar da seriedade do trabalho e das contribuições que a Coalizão fez ao longo dos anos. Eu e outros fundadores formávamos um grupo chamado Amigos da Coalizão e respondíamos institucionalmente pela rede. Mas, do ponto de vista institucional, ela não era uma organização. Isso aconteceu em 2021, quando ela ganhou um CNPJ próprio, constituindo-se, assim como um instituto.” – Marina Grossi, presidente do CEBDS.