Especialistas cobram implementação do Código Florestal e defendem protagonismo do país em restauração e produção sustentável

Os avanços dos últimos dez anos na agenda do uso da terra e seus caminhos estratégicos daqui em diante foram tema do painel “De onde viemos, para onde vamos: a década agroambiental brasileira”, realizado na Plenária Coalizão Brasil 10 anos, em 3 de julho, em São Paulo. Especialistas de diferentes setores avaliaram o papel da Coalizão desde a sua criação e modos para que o país supere polarizações políticas e fortaleça sua liderança na transição climática, apresentando soluções para temas como restauração ecológica e conciliação entre produção agropecuária e conservação ambiental.
A plenária reuniu cerca de 120 pessoas e foi acompanhada por mais de 800 pessoas no canal do YouTube da Coalizão. Para assistir à gravação, clique aqui. Além da discussão sobre a última década, o evento também debateu oportunidades para a agenda do uso da terra nos próximos anos.
Enviado especial da COP 30 e moderador do painel, Marcello Brito afirmou que a agricultura de hoje é melhor do que há dez anos, mas que há muitos desafios que requerem mobilização. “O Brasil avançou muito em descarbonização, restauração ambiental, agricultura de baixo carbono, implementação de novas linhas de financiamento verde e aplicação de tecnologia. Porém, ainda persiste a polarização entre produção e conservação”, alertou Brito, que também é secretário-executivo do Consórcio Amazônia Legal.
Há dez anos, quando a Coalizão surgiu, falar sobre produção aliada à conservação não era algo trivial, lembrou Luana Maia, que foi a primeira coordenadora executiva do movimento:
“Naquela época, existiam muitas divergências em relação ao novo Código Florestal (aprovado havia dois anos). Era a nossa oportunidade de inserir a agenda de conciliação entre produção agrícola e conservação ambiental. Isso não era percebido ou verbalizado como é hoje.”
Atualmente Global Brazil Leal da NatureFinance, Maia sugeriu que a Coalizão aumente sua interlocução com setores como o de seguros e o financeiro, que têm papel importante para criar instrumentos que remunerem a manutenção da floresta em pé.
Também fundadora do movimento, Miriam Prochnow, diretora da Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi), assinalou que a promoção de mobilizações e ações concretas são desafiadoras em uma organização multissetorial. A Coalizão, no entanto, tem se destacado na proposição de soluções para o uso da terra, em um trabalho desempenhado por suas 12 forças-tarefa e demonstrado em sua intensa produtividade – um exemplo são as mais de 150 manifestações públicas divulgadas pela Coalizão desde seu início.
“Tudo isso só se torna possível em um ambiente em que há transparência, comprometimento, critério de não exclusão e respeito”, ressaltou. “Isso precisa ser fortalecido. Temos uma turma bacana, mas ainda há setores que precisam ser motivados e trazidos (para a rede).”
Para Tasso Azevedo, coordenador geral do MapBiomas e membro do Grupo Estratégico da Coalizão, a primeira década da trajetória da rede foi marcada por aprendizados, como o acúmulo de conhecimento sobre temas como desmatamento e conversão do uso da terra. Agora, o movimento deve se dedicar à implementação de ações em escala.
“Entendemos muito melhor como os processos funcionam”, sublinhou. “Temos muitas experiências piloto em áreas como mercado de carbono e restauração. No entanto, os impactos das mudanças climáticas continuam ocorrendo, e de forma exponencial.”
Azevedo ponderou que a implementação do Código Florestal, uma das bandeiras levantadas pela Coalizão desde sua fundação, está “praticamente no mesmo lugar desde 2015”. Esta inércia, segundo o especialista, é “inconcebível”: “É hora de a Coalizão dar uma renovada no espírito, ir além do que é possível e propor o que é necessário fazer, por conta das mudanças climáticas”.
Já Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo e presidente executivo da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), considerou que a polarização política é um obstáculo ao avanço da agenda agroambiental. Há, no entanto, meios para contorná-lo:
”Isso é absolutamente possível, desde que tenhamos capacidade de renovar e qualificar nossa ação, e de pararmos de falar só com nós mesmos”, avaliou Hartung, que defendeu a aproximação da Coalizão de partidos políticos. “Esse é um caminho que precisamos trilhar para quebrar algumas resistências.”