Eventos abordam necessidade da implementação de ações concretas até a COP 30, conectando políticas públicas e incentivos financeiros

O Brasil conta com soluções concretas para uma transição climática sustentável do uso da terra, conciliando produção agrícola, conservação das florestas e segurança alimentar. O desafio, agora, é dar escala global a essas estratégias, conectando políticas públicas a incentivos financeiros. A avaliação foi feita por representantes da Coalizão Brasil nos três painéis realizados pela rede na Climate Week Nova York, em setembro. Em um deles, na Scandinavia House, o movimento lançou sua nova publicação, com recomendações para os negociadores da Conferência do Clima de Belém (COP 30).
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Conheça a página especial da COP 30 da Coalizão
A apresentação do documento da Coalizão, “Propostas para uma transição climática global para o setor do uso da terra”, foi realizada no dia 22, em parceria com a TNC Brasil, e reuniu cerca de 100 pessoas. Os cofacilitadores da rede, Fernando Sampaio e Karen Oliveira, comentaram as dez contribuições concretas elencadas no documento, inspiradas em políticas brasileiras que, se adaptadas a realidades de outros países, podem contribuir para a redução das emissões globais de gases de efeito estufa.
“Convidamos todas as suas organizações para entender a importância do setor do uso da terra a nível global”, destacou Sampaio, que também é diretor de Sustentabilidade da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). “Não precisamos inventar soluções – elas já estão acontecendo, e o Brasil está colocando em prática muitas delas. Agora precisamos pensar em como dar escala para outros países que têm os mesmos problemas.”
A publicação foi tema de um painel realizado em seguida com representantes de diferentes setores, que debateram propostas para a gestão sustentável das florestas, a transformação dos sistemas alimentares e o financiamento para a transição climática. Nele, André Guimarães, enviado especial da sociedade civil para a COP 30 e diretor-executivo do Ipam, destacou que não há como atingir as metas climáticas do Acordo de Paris sem assegurar a integridade das florestas tropicais.
“Esse é um momento em que precisamos reconhecer o papel da natureza nos sistemas agrícolas. Sabemos que o aumento das temperaturas representa um risco”, sublinhou. “A Coalizão está na melhor posição para compreender essas questões e influenciar as políticas públicas para a COP 30, mostrando que floresta e segurança alimentar estão conectadas.”
Diretora-executiva do CEBDS, Alessandra Fajardo assinalou que o setor privado brasileiro busca compreender a contribuição da agricultura para a descarbonização do país – uma iniciativa que pode levar ao entendimento da realidade de outros países do Sul Global.
“Se não formos hábeis na criação de pilares estratégicos, ficaremos restritos a iniciativas de curto prazo”, alertou. “Precisamos colocar incentivos para que os produtores se interessem pelos serviços ecossistêmicos. O desmatamento não pode ser uma prática lucrativa. Além disso, precisamos estimular os produtores que já estão fazendo a sua parte, conservando o meio ambiente.”
Eduardo Bastos, CEO do Instituto do Estudo do Agronegócio (IEAg), ressaltou que a comunidade internacional investe mais de US$ 7 trilhões anuais em combustíveis fósseis, mas que, ainda assim, não consegue mobilizar US$ 1,3 trilhão para financiamento da transição climática, quantia demandada por países em desenvolvimento na COP 29, em Baku (Azerbaijão), no ano passado.
“Temos que investir centenas de bilhões de dólares na recuperação de áreas degradadas. O Brasil fará isso em 40 milhões de hectares, e outros países devem adotar a mesma ideia. Essa medida é fundamental para reduzirmos a pressão sobre a floresta. Há muitas empresas e bancos interessados em promover essa mudança.”
O painel foi moderado por Thais Ferraz, diretora programática do Instituto Clima e Sociedade (iCS), e contou com o encerramento de Fabiana Alves, CEO do Rabobank Brasil, instituição que deu apoio financeiro à estratégia internacional da Coalizão rumo à COP 30.
“A COP deve deixar o legado de ações tangíveis, que conectem políticas públicas e finanças”, afirmou Fabiana Alves. “Essa é uma responsabilidade que todos compartilhamos e uma oportunidade que não podemos perder. Belém está esperando por nós e espero vê-los lá apoiando a agenda da implementação.”
Transformação ecológica
O evento seguinte, também realizado por Coalizão e TNC Brasil, foi o painel “Financiando a transformação ecológica: mecanismos inovadores e lições aprendidas pelo Brasil”. Com a abertura do governador do Pará, Helder Barbalho, que descreveu iniciativas para o desenvolvimento sustentável em andamento no estado, a mesa discutiu instrumentos para fortalecer a economia verde, como rastreabilidade da pecuária, concessões florestais e mercado de carbono.
Membro do Grupo Estratégico da Coalizão e head de Sustentabilidade do Itaúsa, Marcelo Furtado destacou que o Brasil, que ocupará a presidência da COP até novembro de 2026, deve apoiar soluções de grande impacto para países ricos em natureza, além de promover o debate sobre a adaptação climática, componente estratégico para o futuro da economia.
“Colocamos clima, pessoas e natureza em discussão na Climate Week. E esse debate não vai só até Belém. Precisamos mobilizar uma agenda comum, em que haja conhecimento científico e mercado”, reivindicou. “O papel da Coalizão é ser uma força indutora para que todos trabalhem juntos.”
Também participaram do painel Anita Fiori, principal na Open Society Foundations, Cristina Reis, subsecretária de Desenvolvimento Econômico Sustentável do Ministério da Fazenda, e Raphael Stein, gerente do Departamento de Meio Ambiente do BNDES. A moderação foi feita por José Otávio Passos, diretor para a Amazônia Brasileira da TNC Brasil.
Novo espaço de discussões
A Climate Week também foi marcada pela inauguração de uma nova arena de debates na New York University (NYU). O evento “Climate Crossroads”, promovido pela instituição, ao lado da consultoria ECCON Soluções Ambientais e da agência O Mundo Que Queremos, com apoio institucional da Coalizão, reuniu centenas de lideranças ao longo do dia 22 de setembro, em diálogos sobre sistemas alimentares, finanças climáticas, agricultura regenerativa, gestão de resíduos e soluções baseadas na natureza.
A gerente-executiva da Coalizão, Carolle Alarcon, participou do painel “How tropical countries can lead the transition to regenerative agriculture worldwide”. A discussão, moderada por Thais Ferraz, do iCS, abordou desafios para levar financiamento, tecnologia e escala à agricultura regenerativa, sobretudo para pequenos e médios produtores.
“O avanço da agricultura regenerativa depende do fortalecimento de políticas públicas, do estabelecimento de instrumentos financeiros e soluções de mercado capazes de integrar produtores às cadeias produtivas”, explicou Alarcon. “Temos iniciativas brasileiras, como o Plano ABC e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que mostram caminhos concretos para conectar a agenda climática com a realidade do campo.”
O evento teve, ainda, a participação de Alessandra Fajardo, do CEBDS, e Eduardo Bastos, do IEAg, além do pesquisador Marcelo Morandi, da Embrapa, que destacou que a adaptação é um conceito-chave par