Documento, lançado na Climate Week NY, reúne dez propostas concretas, feitas com base em soluções brasileiras, que podem inspirar políticas globais para redução de emissões

Responsável por 13 a 21% das emissões de gases de efeito estufa na década passada, o setor de uso da terra é fundamental para o combate à crise climática. Nele se concentram algumas das maiores oportunidades de mitigação de baixo custo, como a redução do desmatamento, a restauração de ecossistemas e a adoção de práticas agropecuárias sustentáveis. O Brasil, como país-sede da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 3O), tem a responsabilidade de apresentar soluções concretas nessa agenda. Esse é o foco da publicação “Propostas para uma Transição Climática Global para o Setor do Uso da Terra”, lançado nesta segunda-feira (22) pela Coalizão Brasil na Climate Week de Nova York.
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O documento destaca que a COP 30 ocorrerá em um ponto de inflexão: eventos extremos cada vez mais frequentes — como secas, enchentes, ondas de calor e incêndios florestais —, comprometem a produção agrícola, agravam a crise hídrica e expõem populações vulneráveis à insegurança alimentar. Dez anos após a assinatura do Acordo de Paris, a implementação da agenda climática tornou-se urgente.
Na nova publicação, a Coalizão apresentou dez propostas concretas para o enfrentamento dos desafios climáticos, que exigem investimentos consistentes em inovação, tecnologia e adaptação. Muitas delas já contam com políticas públicas no Brasil, cujos resultados podem inspirar outras nações a adotar iniciativas semelhantes. Entre os exemplos nacionais que podem ganhar escala estão planos para combate ao desmatamento na Amazônia (PPCDAm), de recuperação da vegetação nativa (Planaveg) e de fomento à agricultura de baixo carbono (ABC+).
“É o início de um movimento que queremos ver ganhar força até a COP 30, envolvendo governos, setor privado e sociedade civil. Estamos falando de experiências brasileiras que podem ser replicadas em escala mundial para combater o desmatamento, valorizar a floresta em pé, restaurar ecossistemas e mobilizar financiamento climático”, avalia Carolle Alarcon, gerente executiva da Coalizão Brasil. “A urgência é clara: no ano passado, o aumento da temperatura média global superou 1,5 grau Celsius, um limite estabelecido no Acordo de Paris. É hora de investir em uma nova economia — e essa transição passa por soluções para o uso da terra.”
As medidas descritas pela rede foram divididas nos três eixos da Agenda de Ação da COP 30, divulgada pela presidência da cúpula em junho. São elas: Gestão Sustentável de Florestas, Oceanos e Biodiversidade; Transformação da Agricultura e Sistemas Alimentares; e Catalisadores e Aceleradores, um pilar que reúne iniciativas ligadas a financiamento, tecnologia e capacitação.
Cofacilitador da Coalizão e diretor de Sustentabilidade da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes), Fernando Sampaio destaca que a agropecuária brasileira tem um papel decisivo na segurança alimentar e na transição climática global.
“Já temos tecnologias e práticas sustentáveis consolidadas, como a integração lavoura-pecuária-floresta, plantio direto e o manejo de pastagens, que reduzem emissões e aumentam a produtividade”, assinala. “O desafio agora é escalar essas soluções, com apoio técnico, financiamento e políticas públicas que valorizem quem produz com responsabilidade. O Brasil pode ser referência mundial em uma agropecuária de baixo carbono, que alia competitividade, conservação ambiental e segurança alimentar — e a COP 30 é o momento estratégico para mostrar isso ao mundo.”
Karen Oliveira, cofacilitadora da rede e diretora para Políticas Públicas e Relações Governamentais na The Nature Conservancy (TNC Brasil), sublinha a necessidade de que a comunidade internacional mobilize recursos financeiros na velocidade e na magnitude exigidas pela emergência climática:
“O Brasil tem projetos maduros e de alto impacto prontos para receber investimentos, mas precisamos de mecanismos que facilitem o acesso ao financiamento climático, especialmente para pequenos e médios produtores. Isso significa alinhar fundos e políticas públicas para direcionar capital a iniciativas que conciliam produção, conservação e inclusão social. A COP 30 é uma oportunidade de transformar compromissos em fluxos reais de recursos, capazes de acelerar a transição para uma economia de baixo carbono e com boas práticas a partir das Soluções Baseadas na Natureza.”
O documento será entregue à presidência da COP 30 e a representantes de diversos ministérios, como Agricultura e Pecuária, Meio Ambiente, Fazenda e Relações Exteriores.
As propostas da Coalizão
Gestão Sustentável de Florestas, Oceanos e Biodiversidade
1. Aumentar investimentos para controlar e reverter o desmatamento e a degradação florestal;
2.Promover a restauração de paisagens e florestas em larga escala;
3. Incorporar ações integradas de prevenção e combate a incêndios florestais;
4. Ampliar mecanismos de pagamentos por serviços ambientais;
5. Fortalecer a rastreabilidade socioambiental das cadeias produtivas.
Transformação da Agricultura e Sistemas Alimentares
6. Recuperar áreas degradadas e ampliar sistemas agropecuários de baixo carbono e regenerativos;
7. Implementar sistemas alimentares mais resilientes, adaptados e sustentáveis.
Catalisadores e Aceleradores (Financiamento, Tecnologia e Capacitação)
8. Definir padrões globais para finanças agrícolas sustentáveis;
9. Reconhecer a bioeconomia como estratégia global para o desenvolvimento sustentável;
10. Destinar pelo menos 50% das metas do financiamento climático para adaptação.
A agenda internacional da Coalizão rumo à COP 30 tem o apoio do Rabobank Brasil.
Apresentação para lideranças do governo
O documento com as propostas da Coalizão está sendo entregue pela equipe e por membros da rede a negociadores da COP 30 e a lideranças do governo. A publicação foi apresentada presencialmente em outubro à CEO da conferência, Ana Toni; à secretária nacional de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Rita Mesquita; e ao diretor do Departamento de Florestas da pasta, Thiago Belote. O relatório também foi levado às técnicas Adriana Gabino e Paula Leal, do Departamento de Clima do Itamaraty, que acompanham a agenda de agricultura da COP.