Fernando Sampaio destaca que um dos desafios da COP 30 será mobilizar recursos para restauração florestal, recuperação de pastagens degradadas e transição climática da agricultura

O setor do uso da terra é um componente essencial da transição climática — e o Brasil reúne todas as condições para liderar esse processo. Essa é a avaliação de Fernando Sampaio, cofacilitador da Coalizão Brasil e diretor de Sustentabilidade da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).
Na entrevista abaixo, Sampaio detalha a construção das dez recomendações da Coalizão aos negociadores da COP 30 e destaca que o financiamento será decisivo para dar escala a políticas capazes de conter a crise climática, como a restauração florestal e a recuperação de pastagens degradadas.
Qual é a importância e o principal objetivo da Coalizão com as propostas?
O documento nasceu quando decidimos colocar no papel o que esperamos da COP e o que consideramos como sua medida de sucesso, para apresentar aos seus negociadores e à própria Coalizão. Ao mesmo tempo, olhamos a Agenda de Ação apresentada pela presidência da conferência e cruzamos com nossas propostas, colocando a questão do uso da terra como prioridade das negociações. Muito se fala da transição energética, mas entendemos que as soluções baseadas na natureza e outras práticas sustentáveis no uso da terra têm potencial muito grande para a redução de emissões e serem uma solução climática e não só para o Brasil. Queremos citar suas políticas concretas como exemplos que podem ser seguidos por outros países.
Como foi o lançamento do documento na Climate Week de Nova York? Como está sendo a recepção das propostas da Coalizão?
O lançamento foi positivo: muita gente participou do evento e foi bom ter aproveitado o momento da Climate Week. Aqui no Brasil, começamos a fazer as entregas do documento a autoridades e lideranças. As propostas já foram apresentadas ao Itamaraty, à Ana Toni (CEO da COP 30) e aos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente. A recepção está sendo boa, acredito que porque há muita coerência entre o que estamos propondo e o que já vem sendo discutido com o setor privado e a sociedade civil. O documento promove uma convergência de todos para colocar o Brasil na liderança da agenda de soluções baseadas na natureza.
A Coalizão propõe indicadores para medir o sucesso da COP, em termos globais e para o uso da terra. Avaliar a COP é um desafio?
A COP é uma grande negociação, e precisávamos fazer algumas perguntas para nós mesmos. O que queremos da COP? O que a gente gostaria que resulte das negociações para considerar que ela foi um sucesso, olhando para a agenda que interessa à Coalizão? Alguns pontos são gerais, como destravar o financiamento climático, que será uma das grandes pautas de Belém, e implementar o Artigo 6 (que trata dos mercados de carbono). No caso do uso da terra, os indicadores que colocamos abordam mecanismos financeiros que remunerem conservação, além do direcionamento de recursos, hoje destinados a subsídios fósseis, para a natureza e a recuperação de áreas degradadas. Se conseguirmos avançar com esses temas em Belém, será algo positivo.
Dentre as propostas e indicadores, quais são mais relevantes para o setor agropecuário?
Para mim, é principalmente a questão de financiamento, pois tudo que estamos abordando – restaurar áreas de florestas, recuperar pastagens degradadas, fazer uma transição na agricultura – demanda investimento. Precisamos de recursos desenhados para o uso da terra. Pode haver vários mecanismos e diferentes possibilidades, como o TFFF (Fundo Florestas Tropicais para Sempre) e os mercados de carbono. O importante é conseguir que o fluxo de investimento chegue aonde é necessário.
Qual a sua expectativa com relação às propostas da Coalizão após a COP 30? Como a rede pretende trabalhá-las?
Vamos esperar o resultado da COP e, junto com os insumos que construímos, com as metas climáticas do Brasil e com os planos setoriais do Plano Clima, vamos redesenhar nosso trabalho. Queremos discutir a reorganização da atuação da rede e de suas forças-tarefa, definindo prioridades para o ano que vem, quando haverá eleições e, num prazo maior, para a próxima década.
Em sua opinião, como está o cenário nacional e internacional para o avanço da agenda agroambiental pela qual a Coalizão atua?
No documento, colocamos cases que mostram como no Brasil já tem muita coisa acontecendo. O país conta com planos de agricultura de baixo carbono e para recuperação de pastagens degradadas. Tem o Planaveg, para restauração, o PPCDAm e o PPCerrado, para controle de desmatamento, e o Código Florestal. Agora há políticas para rastreabilidade que estão sendo construídas e implementadas. É lógico que cada política tem seus gargalos e nosso papel, como Coalizão, é propor soluções, mas isso tudo nos deixa otimistas. Acredito que os mercados de carbono e o TFFF viriam a cobrir algumas lacunas que temos para conseguir trazer mais financiamento para conservação e para a transição na agricultura – algo que também demanda assistência técnica, sobretudo para pequenos produtores. Temos muito a fazer, mas várias iniciativas estão em andamento, então não dá para ser pessimista. No ano que vem teremos eleições e precisamos defender que os candidatos mantenham a agenda de clima relacionada ao uso da terra.