Mariana Barbosa, diretora da re.green, comenta leilão de concessão da Flona Bom Futuro, o primeiro focado em restauração com créditos de carbono, vencido pela empresa

O leilão para a restauração da Floresta Nacional (Flona) do Bom Futuro, em Rondônia, em 25 de março, marca um divisor de águas na política florestal brasileira. É a primeira vez que uma concessão florestal é voltada à restauração com geração de créditos de carbono. Mariana Barbosa, colíder da Força-Tarefa Restauração da Coalizão Brasil e diretora jurídica e de Relações Institucionais da re.green, empresa vencedora do leilão, comenta o diferencial da proposta e o papel da rede na influência pela mudança de paradigma no marco legal.
“Se precisamos de floresta em pé daqui a três ou cinco anos, o plantio precisa ocorrer agora. A Coalizão é fundamental nesse processo justamente por reunir uma diversidade de atores que permite trocar conhecimento e avançar muito mais rápido do que qualquer organização conseguiria sozinha”, diz Barbosa, em entrevista a este boletim. Confira:
Qual o principal diferencial deste primeiro leilão de concessão para restauração em comparação aos modelos anteriores?
Este processo é inegavelmente histórico ao conciliar o público e o privado em um modelo inédito no âmbito federal. A principal inovação é a geração de créditos de carbono para viabilizar a restauração de áreas que sofreram degradação ao longo de décadas. Para a re.green, as concessões são um caminho estratégico para dar escala ao acesso à terra. Isso facilita a operação e a replicação do modelo em outras Unidades de Conservação e estados.
Como vocês pretendem reverter o histórico de degradação da Flona do Bom Futuro?
A área sofreu por anos, mas o foco agora é olhar para frente. Mais do que recompor o estoque de árvores, temos a grande oportunidade de construir um novo modelo de desenvolvimento a partir da floresta conservada. Queremos reverter a lógica: em vez de gerar valor destruindo a floresta, geramos valor restaurando e conservando. Isso cria uma cadeia virtuosa, que passa pela produção de mudas e sementes e se desdobra em cadeias de bioeconomia.
De que forma as comunidades locais e povos indígenas serão integrados a esse novo modelo econômico?
O edital traz diretrizes importantes para o investimento no entorno. Há incentivos para a compra de mudas de comunidades locais e de povos indígenas, como os Karitiana, que estão ao norte da Flona do Bom Futuro. Isso amplifica o que a restauração já faz em pequena escala: o pequeno viveiro tem a chance de crescer e as comunidades passam a ser protagonistas da cadeia. Temos exemplos na empresa, como no Maranhão, onde a coleta de açaí em projetos de restauração gerou rendas estimadas de R$ 5 milhões para as comunidades extrativistas. Nosso plano é detalhar esses projetos a partir de uma escuta social ativa, respeitando a vocação de cada território.
Qual foi o papel da Coalizão na viabilização desse marco?
O papel da Coalizão foi uma fortaleza em quatro pontos principais. Primeiro, na liderança política para influenciar pela alteração da Lei de Concessão Florestal (Lei 11.284/2006), permitindo que as concessões abrangessem também a restauração. Segundo, na divulgação da agenda, explicando que o modelo é possível e seguro. Terceiro, ao aproximar os atores da restauração dos concessionários de manejo, permitindo que a gente “beba na fonte” de quem já opera em áreas públicas. E, por fim, ao criar uma rede de apoio que entende que este é um desafio conjunto: se o modelo der certo para a re.green, ele destrava um pipeline de milhões de hectares para o país.
Diante das metas climáticas para 2030, qual é o senso de urgência para a replicação desse modelo?
Não temos uma década para aprimorar a regulamentação; precisamos aprender fazendo. A restauração em escala exige celeridade. Se precisamos de floresta em pé daqui a três ou cinco anos, o plantio precisa ocorrer agora. A Coalizão é fundamental nesse processo justamente por reunir uma diversidade de atores que permite trocar conhecimento e avançar muito mais rápido do que qualquer organização conseguiria sozinha. Agora, vamos colher aprendizados nesta primeira experiência e transformá-los imediatamente em ação para as próximas áreas.