Banco, Coalizão e instituições parceiras detalharam, em evento no Rio de Janeiro, como aporte de R$ 24,9 milhões contribuirá para ampliar plantio, pesquisa e manejo de árvores na Mata Atlântica e na Amazônia

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Parque Científico e Tecnológico do Sul da Bahia (PCTSul) e a Coalizão Brasil fizeram o lançamento oficial de uma parceria estratégica, que envolve o aporte de R$ 24,9 milhões para o fortalecimento do setor florestal brasileiro, no dia 17 de março, no Rio de Janeiro.
O montante financiará o Programa de Pesquisa & Desenvolvimento em Silvicultura de Espécies Nativas (PP&D-SEN). Os recursos, não reembolsáveis, são do Fundo Tecnológico do banco e serão liberados ao longo de cinco anos. Com as contrapartidas, o investimento total no projeto chegará a R$ 30,8 milhões. O anúncio já havia sido feito em outubro de 2025, mas o evento no Rio oficializou essa parceria.
Nesta nova etapa, o PP&D-SEN passa a contar com a coordenação técnica da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), responsável pelas ações na Mata Atlântica, e a Embrapa, que exercerá o mesmo papel na Amazônia, com apoio do Conselho Diretivo do Programa e de um Conselho Gestor.
Já a gestão financeira, administrativa e logística do projeto caberá à Fundação de Apoio Institucional ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FAI), entidade sem fins lucrativos ligada à UFSCar. Outras instituições de ensino e pesquisa e empresas poderão se associar às atividades.
Florestas nativas e restauração como prioridade
Na mesa de abertura do evento “Inovação em Silvicultura de Nativas”, o superintendente da Área de Meio Ambiente do BNDES, Nabil Kadri, destacou que a agenda de valorização das florestas nativas e de restauração florestal é vista pelo banco com alta prioridade institucional.
“Desde 2023, nós conseguimos construir uma plataforma muito complexa, o BNDES Florestas, que envolve recursos financeiros, instrumentos não financeiros e parcerias com diversas instituições”, afirmou. “Chegamos a 2026 com uma carteira que já mobilizou R$ 7 bilhões, com geração estimada de 70 mil empregos e expectativa de plantar mais de 280 milhões de árvores. Em três anos de trabalho, estamos entregando um plano de plantio de mais de uma árvore por habitante do Brasil.”
Para Targino de Araújo Filho, diretor da FAI-UFSCar, o financiamento do BNDES ao PP&D-SEN é um passo estratégico para o Brasil: “Não é arriscado dizer que esse projeto deve alterar a participação do país, que hoje é de apenas 10%, na produção mundial de madeira tropical. Nosso papel, enquanto fundação de apoio, é permitir que os pesquisadores possam dedicar todo o seu tempo ao programa.”
Moderada por Marcus Cardoso, chefe do Departamento de Meio Ambiente do BNDES, a abertura contou também com a participação de Selma Beltrão, diretora de Governança e Informação da Embrapa, e Ana Beatriz de Oliveira, reitora da UFSCar.
Posição central no uso da terra
Na sessão seguinte, dedicada ao histórico e perspectivas do programa, a gerente-executiva da Coalizão, Carolle Alarcon, destacou como o PP&D-SEN contribuiu para mover a agenda de silvicultura de nativas de algo que era visto apenas como tendo potencial, para outra, de implementação.
“O desafio agora é dar escala, com investimento e apresentando resultado concreto, para que a silvicultura de nativas deixe de ser uma atividade de nicho e ocupe uma posição central no uso da terra”, sublinhou.
“É preciso que se estabeleça um marco regulatório, maior integração com políticas públicas chave e com ministérios, como o da Agricultura, Desenvolvimento Agrário e Fazenda.”
Este é o segundo aporte de recursos no PP&D-SEN. Em 2023, o programa recebeu uma doação de US$ 2,5 milhões do Bezos Earth Fund (BEF), o que permitiu a implantação dos primeiros sítios de pesquisa e polos de referência, bem como de ações relacionadas a capacitação e comunicação.
Diretora associada de Restauração de Paisagens do BEF, Emily Averna pontuou que a iniciativa brasileira se posiciona em uma “interseção entre pesquisa e inovação” que poderia ser replicada em outros países.
“Nos próximos anos, podemos começar a fazer investimentos complementares relacionados ao PP&D-SEN, como ajudar mais empresas a entrarem nesse ecossistema, além do fortalecimento das cadeias produtivas.”
A sessão sobre o histórico e futuro do programa — que foi moderada por Miguel Calmon, colíder da Força-Tarefa Silvicultura de Nativas da Coalizão — teve ainda Márcio Macedo, engenheiro da área de Meio Ambiente do BNDES; Daniel Piotto, pesquisador da Universidade Federal do Sul da Bahia; Silvio Brienza, pesquisador da Embrapa Florestas; e Fátima Piña, pesquisadora da UFSCar.
Brienza ressaltou que a silvicultura de nativas fortalecerá o plantio de árvores na Amazônia, permitindo construir um “cardápio” de opções versáteis, capaz de atender da agricultura familiar à empresarial, respeitando os diferentes arranjos produtivos e tempos de colheita.
O atendimento a diferentes públicos também será uma das frentes de trabalho na Mata Atlântica, contou Fátima Piña. Segundo ela, os arranjos silviculturais de larga escala terão ainda o objetivo de aproveitar vastas terras abandonadas.
Temas estratégicos de pesquisa
Em outra sessão, Ricardo Viani, professor e pesquisador da UFSCar e representante do Conselho Diretivo do PP&D-SEN, e Marcelo Ferro Garzon, gerente jurídico da FAI-UFSCar, explicaram a estrutura do PP&D-SEN, que tem entre suas ações previstas a implantação de 14 sítios de pesquisa e seis polos de referência em silvicultura de nativas.
O programa trabalhará nove temas estratégicos de pesquisa e inovação, que abrangem de aspectos técnicos a dimensões socioambientais. Também foram apresentados os requisitos básicos para empresas, instituições de pesquisa e outras organizações que queiram submeter seus projetos e participar do PP&D-SEN. Um mapeamento inicial de potenciais parceiros já teve início.
Para nortear os estudos, foram elaborados protocolos de pesquisa, compilados em uma publicação que também foi lançada durante o evento. Segundo Samir Rolim, membro do Conselho Diretivo do PP&D-SEN, o documento foi construído com a colaboração de 53 autores de 29 instituições e traz diretrizes para manejo, melhoramento genético, análise de sementes e de tecnologia da madeira, entre outros temas. O donwload do material poder ser feito aqui.
O evento no BNDES também contou com uma discussão sobre o papel e os desafios do setor privado para alavancar a silvicultura de espécies nativas.
A gravação de todas as atividades está disponível no canal do BNDES no YouTube. Assista aqui.