06/2025

Tempo de leitura: 6 minutos

Compartilhar

Webinar destaca importância do manejo integrado do fogo

Evento, realizado para membros da Coalizão, abordou panorama das queimadas no país e a necessidade de articulação e governança eficaz na gestão de combate e prevenção

Brigadistas do Instituto Brasília Ambiental e Bombeiros do Distrito Federal combatem incêndio em área de Cerrado próxima ao Aeroporto de Brasília. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“Temos tido mais fogo na paisagem”, afirmou Ane Alencar, colíder da Força-Tarefa Combate ao Desmatamento da Coalizão Brasil, durante o webinar “Contribuições da Coalizão para a agenda de gestão e combate ao fogo”, realizado para membros da rede. O evento teve como objetivo apresentar insumos para que o movimento possa entender como contribuir com a agenda da prevenção e combate às queimadas que, no ano passado, atingiram níveis alarmantes.

Para Alencar, que fez a abertura do encontro, o padrão do fogo tem mudado nos biomas brasileiros, algo que ficou evidente em 2024. “Tivemos quase três vezes mais área de floresta queimando no Brasil (no ano passado), em relação a 2023”, explicou a especialista, que também é diretora de Ciência do Ipam.

O aumento da frequência de queimadas em biomas onde isso não é comum, como a Amazônia, também chama a atenção. “Isso tem um impacto gigantesco porque, uma vez que uma área de floresta nativa é queimada, e que o incêndio entra nessas áreas, há uma perda média de 25% da biomassa”, alertou.

Segundo Alencar, a expectativa é que 2025 também seja um ano seco, embora de forma menos grave que em 2024. O que vai influenciar se haverá ou não muitas queimadas é o quanto das fontes de ignição, como a derrubada de vegetação nativa, será possível controlar. E, para isso, é necessário investir em atuação conjunta. “Precisamos entender que a prevenção e o combate ao fogo são uma missão de vários atores. Precisamos de uma articulação muito forte”, concluiu.

Gestão integrada do fogo e comunidades resilientes

O webinar contou com um painel sobre gestão do manejo integrado do fogo, com a participação de André Lima, secretário extraordinário de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA); Osmar Bambini, cofundador na startup umgrauemeio, que criou o software para detecção de fogo Pantera; e Leonardo Gomes, diretor executivo da SOS Pantanal. A mediação foi de Fabiana Reguero, colíder da FT Combate ao Desmatamento e gerente Socioambiental da Amaggi.

Os especialistas reforçaram a importância de articular governos, empresas, proprietários rurais e comunidades locais para promover o manejo integrado eficaz do fogo e fortalecer a resiliência nos diferentes territórios, considerando as especificidades regionais, os ecossistemas, as comunidades e as culturas locais de manejo do fogo.

André Lima destacou que as queimadas representam um “desafio inédito”, que não pode ser enfrentado pelos métodos tradicionais de combate ao desmatamento. A punição a quem colocou fogo na floresta, por exemplo, não é vista como uma solução no curto prazo, devido à dificuldade de flagrar os responsáveis. Além disso, existem obstáculos para prever quando e como as queimadas acontecerão e para reservar recursos para combatê-las.

“Precisamos trabalhar comunidades e territórios resilientes ao fogo”, assinalou Lima. “Temos feito um trabalho intenso de dar consistência e aplicação prática para cada política de manejo integrado do fogo.”

Este esforço também se tornou uma das frentes de atuação da SOS Pantanal, ressaltou Leonardo Gomes, diretor-executivo da ONG. Inicialmente, a organização focou no monitoramento e combate ao fogo, treinando brigadas e ensinando o uso de um aplicativo que ajuda a dar as primeiras respostas e a organizar logística e contato com outros atores quando a situação fica mais grave. 

Atualmente, a região da bacia do Alto Paraguai, que engloba o Pantanal brasileiro e áreas de Cerrado e Amazônia, conta com 29 brigadas – inclusive voluntárias, formadas por empresas e comunidades – que cobrem 700 mil hectares. No entanto, o foco do trabalho mudou, segundo Gomes: “Saímos um pouco do paradigma do combate para um olhar de governança compartilhada do fogo, tornando os territórios mais resilientes e preparados”, revelou. Para isso, a ONG tem feito parcerias com órgãos do governo e empresas que atuam na região.

Osmar Bambini, cofundador da startup umgrauemeio, também reforçou a importância de articular diferentes atores quando se trata de enfrentar as queimadas. A organização é criadora do software Pantera, que ajuda a detectar focos de incêndio em poucos minutos, já adotado por empresas de diversos setores – como florestas plantadas e energia –, além de territórios indígenas e comunidades. Porém, ainda que a tecnologia permita identificar rapidamente as queimadas, o tempo de resposta, como a chegada de bombeiros, pode levar horas ou mesmo dias.

Para Bambini, um modelo de gestão do fogo que pode servir de referência é a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (Agif), de Portugal, que promove a transversalidade das ações. O manejo integrado do fogo, lembrou, envolve lidar com pessoas, educar, plantar mudas resilientes, construir rotas de fuga para biodiversidade e apoiar a bioeconomia local. E, ainda, integrar diferentes níveis de governo, como federal e estadual, para que não atuem de forma separada. “É uma estrada que queremos ajudar a construir: a de uma interação multissetorial e transversal”, adiantou.  

Leia também
Assine nossa Newsletter
Não foi possível salvar sua inscrição. Por favor, tente novamente.
Sua inscrição foi realizada com sucesso.