Da incidência em políticas públicas ao fortalecimento da governança e da agenda internacional, veja os principais marcos de um ano estratégico para o uso sustentável da terra e a liderança climática do Brasil

Em 2025, a Coalizão Brasil consolidou seu papel como espaço multissetorial de articulação, formulação e incidência em políticas públicas para o uso sustentável da terra no país. Ao longo do ano, a rede atuou de forma estratégica em agendas-chave para o enfrentamento da crise climática, a conservação das florestas, o fortalecimento da bioeconomia e a transição para sistemas produtivos mais sustentáveis, no Brasil e no cenário internacional.
Os 12 destaques reunidos nesta matéria refletem a diversidade e a profundidade dessa atuação: vão da mobilização de recursos inéditos para a silvicultura de espécies nativas à construção de políticas estruturantes, como o Plano Clima e o Plano Nacional de Bioeconomia; do avanço em temas técnicos, como rastreabilidade, restauração e pagamento por serviços ambientais, ao fortalecimento da governança interna e da presença da Coalizão em espaços decisórios globais.
Mais do que um balanço, este conjunto de destaques mostra como a Coalizão transformou diálogo multissetorial em entregas concretas, combinando conhecimento técnico, articulação política e compromisso com a integridade socioambiental. Conheça cada um desses marcos e acompanhe como eles ajudam a desenhar caminhos para um Brasil mais justo e sustentável.
Para saber mais sobre a atuação da Coalizão desde sua fundação, dez anos atrás, visite a Linha do Tempo do site, onde é possível filtrar as informações por ano e temas.
Com apoio inédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), novas parcerias com órgãos públicos e articulação entre governo, setor privado e sociedade civil, a silvicultura de espécies nativas ganhou escala e relevância em 2025, consolidando-se como uma estratégia capaz de impulsionar uma nova economia florestal no Brasil.
Em outubro, o BNDES anunciou um aporte de R$ 24,9 milhões ao Programa de Pesquisa & Desenvolvimento em Silvicultura de Espécies Nativas (PP&D-SEN). Os recursos, não reembolsáveis, serão liberados ao longo de cinco anos. Com contrapartidas, o investimento total chega a R$ 30,8 milhões.
Para promover a adesão multissetorial à atividade, a Coalizão organizou uma visita de representantes do governo (entre eles, do Ibama, do Ministério da Agricultura e do BNDES), setor privado e sociedade civil à fazenda da Symbiosis, no sul da Bahia, onde também fica um sítio de pesquisa de espécies nativas do PP&D-SEN, implantado com apoio do Bezos Earth Fund.
Ainda, duas parcerias foram firmadas com órgãos do governo: um Acordo de Cooperação Técnica para alavancar a atividade com o ICMBio, com foco nas Unidades de Conservação (UCs), e um acordo com o Serviço Florestal Brasileiro (SFB) que prevê, entre diversas ações, a criação de um curso à distância.
A contribuição da silvicultura de nativas para a restauração na Amazônia foi tema de um posicionamento conjunto da Coalizão com a Aliança pela Restauração da Amazônia.
Em fevereiro, a Coalizão criou o Grupo de Trabalho do Clima (GT Clima), com o objetivo de contribuir para a elaboração dos planos setoriais de mitigação e adaptação do Plano Clima, fortalecer a estratégia brasileira para a agenda e apoiar as discussões da Conferência do Clima de Belém (COP 30). A Coalizão enviou suas recomendações para consultas públicas e passou a integrar a Câmara de Participação Social (CPS) – espaço de articulação multissetorial que oferece apoio técnico ao Conselho Interministerial sobre Mudanças do Clima (CIM), colegiado responsável por monitorar a política climática do Brasil e elaborar o Plano Clima.
Outra pauta cara à rede, que é a do combate ao desmatamento, ganhou reforço com o lançamento do documento “Brasil sem desmatamento: 12 propostas integradas para a conservação e o desenvolvimento sustentável”, que apresentou ações concretas para zerar o desmatamento ilegal e desestimular aquele passível de autorização. Entre as medidas sugeridas estão a implementação efetiva do Código Florestal, o controle das queimadas e o combate ao crime organizado na Amazônia.
A Coalizão, em articulação com outros coletivos multissetoriais promoveu em outubro, em Brasília, o evento “Pacto pelo Código Florestal”. O encontro reuniu cerca de 70 representantes da sociedade civil, setor privado e poder público e simbolizou um compromisso conjunto para destravar instrumentos da principal política de uso do solo do país.
Paralelamente, a Coalizão acompanhou de perto os debates no Congresso Nacional sobre a legislação. A rede mapeou 89 projetos de lei (PLs) em tramitação na Câmara dos Deputados e no Senado Federal que propõem alterações ao Código Florestal, que chegou ao seu 13º ano sem ser plenamente implementado. Nesse contexto, posicionou-se de forma contrária ao PL 36/2021, por seu potencial de desmantelar a lei e gerar insegurança jurídica tanto para a agropecuária quanto para a proteção da vegetação nativa.
Apresentado na COP 30 pelo governo federal, o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia contou com participação ativa da Coalizão, que acompanhou e sistematizou debates realizados pela Comissão Nacional de Bioeconomia e, em parceria com o CEBDS, enviou contribuições técnicas para a construção da nova política pública.
Como desdobramento de um trabalho desenvolvido ao longo de três anos pela Força-Tarefa Bioeconomia, a Coalizão lançou em janeiro a publicação “Territórios sustentáveis de inovação da sociobioeconomia“, com apoio da iniciativa Uma Concertação pela Amazônia e da plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA). O estudo defende a inclusão de povos tradicionais como pilares para o desenvolvimento sustentável.
A Coalizão lançou três documentos voltados a soluções técnicas e de políticas públicas para promover a rastreabilidade de commodities. O estudo “Mapeamento de Requisitos para a Plataforma AgroBrasil+Sustentável”, entregue a representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), traz contribuições da sociedade civil e do setor privado para o aprimoramento contínuo dessa ferramenta do governo federal. Já a publicação “Rastreabilidade da soja no Brasil: propostas para um sistema nacional integrado” apresenta recomendações, consensuadas com representantes do setor, para unificar dados sobre origem e sustentabilidade da produção do grão.
A governança na cadeia de produção da carne e o panorama para avanços em sua rastreabilidade são abordadas na publicação “Avançando com a Rastreabilidade Socioambiental – Panoramas da integração CAR–GTA no Brasil, boas práticas e recomendações”. O documento, em processo de revisão, reúne propostas dirigidas ao governo federal e a entes estaduais, indicando caminhos viáveis e complementares à rastreabilidade individual bovina.
A terceira edição do Observatório da Restauração foi lançada em dezembro, apresentando 204,21 mil hectares de áreas em restauração mapeadas, uma nova identidade visual e uma publicação sobre a história e a governança da plataforma. Os dados mostram um aumento de 158% de áreas em restauração em relação a 2021, quando o observatório foi lançado, e a importância da articulação com coletivos biomáticos que atuam junto a quem realiza a atividade na ponta.
A Coalizão teve papel importante na estruturação do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). Ao lado da FAO, Ministério do Meio Ambiente (MMA) e da União pela Restauração, a rede liderou a construção da base metodológica para o sistema de monitoramento e reporte da recuperação da vegetação nativa. A Coalizão contribuiu, ainda, para a elaboração de minutas relacionadas à governança do Conaveg, à priorização de áreas para restauração e ao Núcleo de Articulação Territorial.
A Rede do Observatório de Pagamento por Serviços Ambientais (OPSA) foi apresentada em dois eventos na COP 30 como um espaço essencial para diálogo, participação, representatividade e governança colaborativa em pagamento por serviços ambientais (PSA). A plataforma já conta com 222 membros.
Criada na Força-Tarefa PSA da Coalizão, refletindo um esforço conjunto da sociedade civil e do setor privado na agenda, a iniciativa funcionará como uma plataforma nacional para o cadastro e a compilação de informações essenciais para projetos de pagamento por serviços ambientais. Seu objetivo é influenciar políticas públicas, trocar experiências e apoiar arranjos produtivos de base florestal em diferentes territórios.
O OPSA vem sendo construído ao longo de uma série de reuniões. Em agosto, um encontro realizado na sede do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que reuniu mais de 100 participantes, debateu desafios, avanços e perspectivas da iniciativa.
Em posicionamento divulgado no início da COP 30, a Coalizão defendeu que o Brasil assuma protagonismo na regulamentação do Artigo 6 do Acordo de Paris, estruturando um mercado de carbono robusto, seguro para investimentos e com alta integridade socioambiental.
Atuando desde 2018 por meio de sua Força-Tarefa Mercados de Carbono, a Coalizão destacou, no novo texto, a importância de valorizar as vocações nacionais, especialmente as Soluções Baseadas na Natureza, e de integrar iniciativas subnacionais e projetos privados, como REDD+, ARR (Aflorestamento, Reflorestamento e Restauração) e remoções de carbono da agropecuária. Essas iniciativas são consideradas essenciais tanto para o cumprimento da meta climática brasileira – incluindo eliminar o desmatamento e a degradação até 2030 – quanto para a atração de financiamento climático em larga escala, aproveitando as oportunidades dos mecanismos previstos nos Artigos 6.2 e 6.4 do Acordo de Paris, sem comprometer o desenvolvimento de créditos de outros setores.
A Coalizão lançou a “Agenda Prioritária Executivo e Legislativo 2025”, que reuniu, pela primeira vez em um único documento, os planos e projetos de lei relacionados ao uso da terra que a rede priorizaria acompanhar ao longo do ano. A publicação, entregue a parlamentares e representantes do governo, foi organizada em 16 temas prioritários para diálogo com o Executivo e o Legislativo.
A elaboração do documento está alinhada a outras ações de incidência em políticas públicas promovidas pela Coalizão. Ao longo do ano, as forças-tarefa da rede e o GT Clima elaboraram contribuições para dez consultas públicas. Entre elas, destacam-se as recomendações enviadas ao Plano Safra 2025/2026, que incorporou propostas da rede relacionadas a instrumentos como o zoneamento agrícola de risco climático e o financiamento de mudas nativas.
Além disso, a Coalizão também participou da consulta pública da Taxonomia Sustentável, e apresentou propostas elaboradas em conjunto com o CEBDS para o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio). Recomendações também foram construídas para os planos setoriais de Adaptação e de Mitigação do Plano Clima.
As principais instâncias decisórias da Coalizão foram reforçadas, em agosto e setembro, com a chegada de novas lideranças, que trouxeram experiência e ampliaram a representatividade e a diversidade da rede. Responsável pelas diretrizes da Coalizão, o Grupo Estratégico (GE) recebeu Bruno Mariani, CEO da Symbiosis; Leila Harfuch, sócia-gerente da Agroicone; Marina Piatto, diretora-executiva do Imaflora; e Ligia Dutra, vice-presidente de Relações Governamentais da Cargill Agrícola no Brasil. Harfuch é também colíder da Força-Tarefa Finanças Verdes, e Piatto e Dutra foram integrantes do Grupo Executivo (GX) da rede antes de assumirem a nova posição.
Já o GX, responsável pela aprovação de materiais técnicos e pela admissão de novos membros, foi fortalecido com a entrada de Fabiola Zerbini, diretora-executiva da Conexsus – Instituto Conexões Sustentáveis, e Taciano Custódio, head de Sustentabilidade para a América do Sul do Rabobank
Também foi criado o grupo Amigos da Coalizão, iniciativa dedicada a ex-cofacilitadores e ex-integrantes do GE que desejam continuar colaborando com o movimento, em caráter consultivo e voluntário. Em dezembro, Paulo Pianez, diretor global de Sustentabilidade e Relações Governamentais da MBRF, assumiu o posto de cofacilitador, no lugar de Fernando Sampaio, passando a representar o setor privado na Coalizão. Karen Oliveira, diretora para Políticas Públicas e Relações Governamentais da The Nature Conservancy Brasil (TNC), segue representando as organizações da sociedade civil.
A Coalizão participou pela primeira vez do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, em um painel sobre o potencial da agricultura regenerativa. Esse e outros temas, como restauração e sistemas alimentares, também foram discutidos pela rede na Rio Climate Action Week. Na Climate Week de Nova York, a Coalizão lançou o documento “Propostas para uma Transição Climática Global no Uso da Terra”.
Já na COP 30, a Coalizão participou ou coorganizou mais de 30 eventos nos espaços oficiais da Conferência do Clima e em outros debates promovidos pela sociedade civil, setor privado e governo. Silvicultura de espécies nativas, restauração, pagamento por serviços ambientais, sistemas alimentares, rastreabilidade e adaptação estiveram entre os temas debatidos pela rede.
Para além da incidência em pautas externas, 2025 foi um ano especial para a estruturação da Coalizão. A rede completou uma década de existência em uma plenária especial, que teve a participação da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva; do High Level Champion da COP 30, Dan Ioschpe; e de dois enviados especiais da conferência, André Guimarães e Marcello Brito, ambos ex-cofacilitadores da Coalizão.
Além disso, a rede preparou uma série de materiais de comunicação comemorativos, entre eles dois vídeos – um com depoimentos das lideranças atuais da rede, e outro com entrevistas de seus fundadores, que relembraram os primeiros passos do coletivo.
Além de celebrar o seu passado, a Coalizão aproveitou diversos momentos ao longo do ano para pensar em sua próxima década. Fernando Sampaio, que encerrou em dezembro seu mandato como cofacilitador, liderará o GT 10 Anos, que definirá as diretrizes e as agendas prioritárias da rede daqui por diante. A reflexão foi iniciada na Imersão de Líderes de forças-tarefa, realizada em abril, e expandida a todos as organizações integrantes da Coalizão no Encontro Anual dos Membros. Uma dinâmica sobre o assunto também foi tema de um dos blocos da plenária realizada em dezembro.